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Em entrevista para o Expresso das Praias, o comandante do 25º Batalhão da Polícia Militar, Marco Antônio Otávio, garante que a PM apenas revida a violência dos criminosos
 
Comandante do 25. Batalhão da Polícia Militar de Navegantes, criado em maio de 2009, o Tenente-Coronel Marco Antônio Otávio está à frente da corporação desde 14 de junho de 2013. Otávio substituiu o Major Ednaldo Santos Costa. Natural de Florianópolis, com 52 anos, dos quais 30 dedicados à Polícia Militar, o Tenente-Coronel conhece bem a região, onde mora há mais de 12 anos. Casado e pai de quatro filhos, Otávio conversou com o Expresso das Praias sobre um tema que preocupa a população das seis cidades abrangidas pelo 25. Batalhão: a insegurança.
 
 
Expresso das Praias - Como é feito o trabalho de segurança pública nas cidades de abrangência do 25. Batalhão?
 
Otávio - Eu não vejo nenhum trabalho de segurança pública sem o comprometimento de cada prefeito e de cada vereador. Isso a gente tem feito nas câmaras municipais e nas prefeituras. Eu fiz isso em São João de Itaperiú, Penha, Ilhota, Piçarras e Navegantes. Em Luís Alves, farei ainda neste mês. Conheço todos os prefeitos. Tenho conversado com quase todos os grandes empresários. Não procuro para pedir e sim fazer que eles entendam o que é segurança pública. Informamos quantos policiais temos para fazer segurança pública e o que podemos fazer com o que temos. 
 
 
Expresso das Praias - Como a PM trabalha com a cobrança da população que pede uma maior participação dos policiais militares no combate ao crime?
 
Otávio - A Polícia Militar tem um foco social muito grande. A grande maioria dos crimes acontecem por motivo social, pouca estima de pai e filho. O adolescente não sabe o que pode ou não fazer. Hoje, você falar em segurança e só pensar em Polícia Militar e Polícia Civil é muito pouco. Temos que ter hoje uma teia bem formatada com as secretarias de saúde, assistência social, desenvolvimento urbano e Conseg (Conselho Comunitário de Segurança). Hoje, precisamos estar junto com a sociedade. Temos que entender que segurança pública se faz com a participação da sociedade. Dos 12 homicídios que temos na nossa região em 2014, todos os 12 são por causas sociais. É falta de pai, é falta de mãe e tudo ligado ao tráfico de drogas.  
 
 
Expresso das Praias – Recentemente o Batalhão de Balneário Camboriú divulgou um balanço da impunidade, onde a mesma pessoa presa tinha 50 passagens pela polícia. A impunidade atrapalha o trabalho da PM? 
 
Otávio – Na minha opinião o que Balneário Camboriú fez é a realidade. Mas não podemos ir à mesma mão de direção. Fazer o nosso dez mais ou cinco mais não é o caminho. As pessoas que são costumeiramente presas, elas são trabalhadas por advogados ou por pessoas que entendem da lei. Simplesmente vão presos e se for um furto ou crime sem potencial ofensivo são soltos novamente.
 
 
Expresso das Praias – O problema é a lei ou a falta de estrutura para fazer cumprir a lei?
 
Otávio – Hoje temos um quantitativo muito grande de presos no Brasil. Eu vejo que o Judiciário tenta ressocializar o preso, mas é muita gente cometendo crime e principalmente adolescentes. A meu ver temos hoje mais progenitor do que pais. Para ser pai é preciso coragem e temos pouca gente com coragem. A falta de educação coletiva é muito grande.
 
 
Expresso das Praias – O sistema atual recupera o menor infrator?
 
Otávio – Se você quer recuperar um menor infrator não poderia ter uma prisão, exemplo é Itajaí. Onde o menor deveria ficar: numa cela ou num quarto? Em Itajaí, onde eles estão? Numa cela e cela é para criminoso. Fizemos um novo presídio e já está lotado e assim vai. 
 
 
Expresso das Praias - A falta de efetivo é alvo constante de reclamação de moradores e comerciantes. O que faz a PM para que mais policiais estejam nas ruas?
 
Otávio – A gente vive em constante pedido por efetivo. Em 2014, vamos perder até o final do ano 16 policiais. Em Luís Alves, onde temos 10 policiais, três vão para a reserva. Quer dizer, nem o mínimo vamos ter. Estamos trabalhando intensamente para trazer mais policiais. Em maio formam-se mais 895 soldados e já solicitamos que as cidades atendidas pelo 25. Batalhão recebam mais policiais. Temos 165 policiais nas seis cidades e o ideal seria que tivéssemos pelo menos mais 100. Hoje, temos um buraco no efetivo muito grande e se não for feito nada este buraco vai aumentar. 
 
Expresso das Praias – Como a PM trabalha com um sistema judiciário que prende e solta o bandido? Às vezes o bandido é preso e no outro dia ele está na rua até zombando do policial que o prendeu.
 
Otávio – O policial sabe que vai enxugar gelo. Ele sabe que vai fazer pescaria artesanal. Ele vai pegar o peixe, vai olhar o tamanho do peixe e devolver ao mar. Quem devolve? Não é a polícia que devolve, é a Justiça. Antes o problema estava fora da escola e da família. Hoje, está dentro da família e da escola. Hoje, o Batalhão vai para dentro da escola tirar o traficante. Eles estão traficando nos banheiros da escola, nos pátios das escolas. Eles ameaçam professores e diretores.
 
 
Expresso das Praias – Nos últimos anos aconteceram ataques por parte de uma facção criminosa, com carros e ônibus incendiados. Isso despertou medo na população. A atuação desse grupo criminoso preocupa a PM na região? 
 
Otávio – Tenho certeza de que não nos preocupa. As ações criminais desse grupo não são evoluídas aqui na nossa região. O que nos preocupa muito são os pequenos furtos, os furtos a residências e ao comércio. É isso que causa o clamor público. Aqui todos os informes que chegam até nós [sobre essa facção criminosa]não têm procedência.  Os recentes ataques na região não têm ligação alguma com a facção criminosa. 
 
 
Expresso das Praias – Com tanta impunidade, existe um clamor popular para que a polícia extermine o bandido. Como a PM lida com esta situação?
 
Otávio – O policial se forma para prender e não para matar. Mas a Polícia Militar não vai deixar de combater a criminalidade. Não vai se abater com as armas que vêm contra nós. O que há nesses confrontos é a falta de vergonha, o desconsiderar do que seja um policial militar, o desconsiderar do que seja a lei. Eles estão descarados. Eles não têm medo de morrer. Eles vão ao confronto para matar ou morrer. Todas as vezes que eles entrarem em confronto com a PM vai ter o devido retorno. Toda vez que eles trocarem tiros com a Polícia Militar, a Polícia Militar vai reagir do mesmo jeito. 
 
 
Expresso das Praias – Como a participação do Conseg pode diminuir a criminalidade?
 
Otávio – O Conseg de Piçarras, que para mim é um dos melhores do estado, é um bom exemplo de que a participação pode ajudar. Quanto mais pessoas estiverem envolvidas no Conseg nas cidades, melhor será para a comunidade. 
 
 
Expresso das Praias – Como o senhor avalia esses cinco anos de criação do 25. Batalhão e como ele impactou o dia a dia dos moradores dos seis municípios?
 
Otávio – Conseguimos dar visibilidade a todas as ocorrências nas cidades. Abrimos o gabinete para todas as situações e também para a comunidade. A criação do 25. BPM auxiliou no pedido de reforço de policiais de outras cidades do Estado. Por exemplo, Barra Velha teve a participação da cavalaria na segurança durante a temporada de verão. Todas as vezes que solicitamos fomos atendidos. Aumentou também o número de barreiras e o policiamento ficou presente em muitos lugares em que a PM não chegava. 
 
 
Expresso das Praias – Como o senhor avalia a relação das comunidades de bairros carentes, onde a criminalidade é alta, com a Polícia Militar?
 
Otávio – Eu acredito que ainda existe uma confiança na Polícia Militar. Nessas comunidades onde o tráfico de drogas é grande, a população não tem culpa. Ela é acuada pelos traficantes. Como há poucos policiais com aquela comunidade, os criminosos acabam tomando o lugar da polícia. 
 
 
Expresso das Praias – Na nossa região, um bairro de Navegantes é considerado perigoso. Relatos de moradores ainda indicam ocorrências de tiroteios e toque de recolher por parte de bandidos. O que a polícia faz para inibir a prática desses bandidos?
 
Otávio – O bairro São Paulo não é um bairro perigoso. Existe uma minoria que atua no bairro. O bairro não é perigoso e prova disso é a quantidade de comércios que se estabeleceram no bairro nos últimos anos. Temos duas grandes escolas lá. Toque de recolher por parte de bandidos antigamente existia, mas a PM desconhece que isso aconteça hoje. 
 
 
Expresso das Praias – No começo do mês, um confronto durante uma ocorrência de Farra de Boi entre moradores do bairro São Pedro, em Navegantes, resultou na morte do adolescente Gabriel Rodrigues Felício, 15 anos. A PM está preparada para combater este tipo de situação?
 
Otávio – Somos preparados na nossa academia e só não morreu mais gente porque estamos preparados para este tipo de confronto. Tínhamos mais de 200 pessoas lá e com sete policiais. A Farra do Boi é um crime ambiental e vamos combater. 
 
 
Expresso das Praias – A PM de Navegantes negou no primeiro momento o uso de arma letal durante o confronto com os farristas, mas depois admitiu que um policial fez o disparo de três tiros. Um desses tiros foi que atingiu o adolescente?
 
Otávio – Não temos como informar. Foi aberto um inquérito militar e um civil para apurar o que aconteceu. O policial foi ouvido e alegou legítima defesa. Ele não atirou para matar. O policial atirou para baixo. O policial quando aprende a atirar, ele aprende a atirar para matar. Ele não aprende para atirar no joelho ou cotovelo. O policial aprende para atirar no peito e na cabeça. Se o tiro pegou na perna, ele atirou para baixo. 
 
 
Expresso das Praias – O número de policiais e viaturas é o adequado em Penha e Piçarras?
 
Otávio – O adequado é que tivéssemos o dobro. Em Penha e Piçarras são quatro viaturas, mas temos pouco efetivo para colocar todas nas ruas. 
 
 
Expresso das Praias – Como está o processo de instalação das câmeras de videomonitoramento em Penha e Piçarras?
 
Otávio – Essa pergunta tem que fazer para os prefeitos. É o município que assina o convênio para instalação das câmeras com o Governo do Estado e não a PM. Acredito que o sistema ajuda muito e inibe a prática de crimes. 
 
 
Expresso das Praias – Existe algum tipo de ajuda para a PM por parte dos municípios ou empresários?
 
Otávio – Não existe nenhum fundo de reaparelhamento para a Polícia Militar. Aqui na região temos apenas um convênio com a Prefeitura de Navegantes com relação ao departamento de trânsito. Nenhum município da região disponibiliza nenhum recurso. Em Brusque tem, porque os empresários na cidade querem pagar. 
 
 
Expresso das Praias – Como a comunidade pode ajudar no combate à criminalidade?

 

Otávio – Primeiro formar seus conselhos comunitários de segurança, como existe em Piçarras, deveria ter também em São João do Itaperiú, Penha, Barra Velha, Ilhota e Navegantes.   O Conselho de Segurança é uma das grandes ferramentas para combater a criminalidade, mas a própria comunidade não se motiva para isso acontecer. 
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