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Estudo sobre efeitos da infecção no cérebro humano tem impacto mundial

PIÇARRAS - A neurocientista Cláudia Pinto Figueiredo, de Balneário Piçarras, lidera o grupo de pesquisadores que acaba de fazer uma descoberta impressionante: a infecção pelo Zika vírus também é capaz de causar danos ao cérebro de adultos, e não só ao de fetos, como se acreditava. Para chegar a esse resultado, a equipe teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio, a Faperj, informa Cláudia, doutora em Neurociências pela Universidade Federal de Santa Catarina e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas da UFRJ.

Publicada na quinta (5) no renomado periódico científico “Nature”, a descoberta tem repercussão mundial porque representa um avanço dos mais relevantes. Um trabalho que também é ameaçado pelos cortes impostos pelo Governo Federal para a área da educação e pesquisa.

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Em entrevista à Globonews, Cláudia explicou que a partir dos achados clínicos durante o surto de zika em 2015, quando muitos pacientes apresentavam complicações neurológicas, a equipe de pesquisadores passou a estudar o cérebro de pacientes adultos que eram operados no hospital universitário para outras causas.

Em laboratório, amostras cultivadas foram encubadas com o vírus e viu-se que ele se replicava nesse tecido adulto, “o que é uma mudança de paradigma relacionada com a infecção pela zika”, ela destaca. Até então, acreditava-se que o vírus infectava só o cérebro dos fetos.

“Além disso, a gente inoculou o vírus no cérebro de camundongos adultos e viu que eles apresentavam replicação desse vírus, com alterações importantes da memória e prejuízos motores. Mesmo após a diminuição da carga viral, 30 dias após a infecção - o que é um período longo para um camundongo já que a vida deles têm um período de dois anos - esses animais ainda apresentavam prejuízo de memória.”

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A doutora Cláudia, à esquerda: trabalho em equipe (Divulgação | UFRJ)

Tratamento

O estudo chegou também a apontar um tratamento para o problema, conforme revela a doutora Claúdia:

“Esssa infecção pelo vírus causava um intenso processo inflamatório que tinha um mediador principal, o mesmo mediador presente nos pacientes que têm artrite. Como esse mediador está alto nesses pacientes que têm artrite, foi desenvolvido já um medicamento que o neutraliza; a gente usou esse mesmo medicamento para neutralizar esse mediador no cérebro e viu que tem uma reversão nos efeitos sobre a memória dos camundongos.”

De acordo com informação publicada sobre o estudo na BBC News Brasil, o medicamento “é um anti-inflamatório de nome genérico infliximab”, que pode funcionar, “embora não em todos os casos.”

Em entrevista à BBC, a doutora Cláudia ressaltou que o achado da pesquisa “vai ajudar a traçar novas políticas de saúde pública e diagnósticos neurológicos mais rápidos, precisos e com menor custo.”

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Pesquisa também apontou que tratamento para com anti-inflamatório é eficaz em uma parte dos casos (Divulgação | UFRJ)

Pesquisa ameaçada

Ao mesmo tempo que celebra o importante achado científico, a equipe de pesquisadores mostra-se preocupada com o futuro desse estudo e da Ciência no Brasil:

“A situação está muito complicada em termos de apoio à Ciência”,  revela a doutora Cláudia, referindo-se ao anúncio feito pelo governo federal do corte de 5,6 mil bolsas de pós-graduação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). “É uma coisa devastadora para a Ciência” - adverte.

Junto com recursos da Rede de Pesquisa em Zika, Chikungunya e Dengue no Estado do Rio de Janeiro e da Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa  (Faperj), foi esse tipo de bolsa que permitiu a realização do estudo sobre o Zika vírus e seus efeitos. 

“Bolsas são fundamentais para realizarmos pesquisas como esta. Não temos pesquisadores contratados, mas sim alunos bolsistas de pós-graduação da Capes coordenados por professores. Sem as bolsas, vai ser impossível fazer Ciência” - alerta a pesquisadora. 

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