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Manancial abastece Piçarras, Penha e uma parte de Navegantes
VERSÃO AMPLIADA

REGIÃO - A divulgação de um estudo que aponta contaminação por agrotóxicos em 22 de 90 mananciais de Santa Catarina colocou muitos consumidores em alerta quanto ao risco que correm ao usar a água. No Rio Piçarras, que abastece Balneário Piçarras, Penha e uma parte de Navegantes, ficou constatada a presença do ácido diclorofenóxiacético (2,4-D) na concentração de 0,066 microgramas por litro (μg/L). Na amostra analisada, a quantidade está muito abaixo do limite consolidado na legislação (30,0 μg/L).

O 2,4-D é classificado pela Anvisa como altamente tóxico. Junto com outro herbicida (2,4,5-T), foi usado para compor a fórmula do temido "agente laranja", desfolhante usado pelo exército dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã que provocou enfermidades irreversíveis, sobretudo malformações congênitas, câncer e síndromes neurológicas em milhares de pessoas. O uso agrícola é restrito aos períodos de pré e pós aparecimento das ervas daninhas em 13 tipos de cultura, das quais duas estão presentes na área rural de Piçarras: a do arroz e a do eucalipto.

Mas essa pode não ser a única substância presente na água durante todo o ano. A engenheira química responsável pelo parecer técnico afirma que, mesmo em concentração abaixo dos níveis máximos recomendados pelo Ministério da Saúde, a contaminação representa risco.

“Possivelmente há outros agrotóxicos e poluentes interagindo com os poluentes aferidos, e que não foram abordados nas análises, com efeitos imprevisíveis sobre a saúde da população exposta”, alerta a Drª Sônia Corina Hess.

A ausência do glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo e amplamente usado no estado, segundo o Ibama, causou estranheza à Doutora Sônia, que é parecerista voluntária.

Herbicida 2,4-D, encontrado na água bruta do rio Piçarras, também é usado em pastagens, no cultivo de arroz e eucalipto (Foto: Divulgação | Casan)

Além disso, a pesquisadora e professora da UFSC afirma que são necessários estudos cíclicos, a cada estação do ano, para que se possam identificar agentes usados durante as diferentes fases das culturas existentes nas margens dos rios analisados:

 
“Nos municípios que já apresentaram contaminação da água nesta primeira amostragem, sugere-se que sejam realizados estudos técnicos visando a investigação das fontes de contaminação e o planejamento de medidas visando a minimização dos riscos à população exposta”, conclui.

Limite de risco

A Casan lamentou a forma como o resultado foi divulgado pela imprensa estadual, sem o contraponto da concessionária. Em nota, a companhia informou que todas as análises estão dentro dos padrões recomendados e que a água fornecida é segura para o consumo humano.

Estação de Tratamento de Água (ETA) está localização próxima aos arrozais e plantações de eucalipto (Foto: Divulgação | Casan)

Ouvida pelo Expresso das Praias, a concessionária Águas de Penha, que compra da Casan a água tratada do Rio Piçarras, também afirmou que segue a regulamentação da Portaria de Consolidação nº 05 do Ministério da Saúde.

“Vale destacar que a informação veiculada refere-se ao resultado da coleta de duas amostras de água tratada e de uma água bruta, todas com resultados muito inferiores ao máximo permitido naquela Portaria”, afirma em nota.

Mas a professora da Univali, Márcia Gilmara Marian Vieira, afirma que não há níveis seguros para o consumo diário de agrotóxicos na água:

“Existem inúmeros estudos e o risco de câncer, Alzheimer, Parkinson, autismo, suicídio, depressão é alto mesmo em pequeníssimas doses”, afirma a doutora em Química Orgânica e membro do Fórum Catarinense de Combate aos Agrotóxicos e Transgênicos (FCCIAT).

Herbicida 2,4-D, desenvolvido na guerra do Vietnã, era um dos compostos do temido "agente laranja" (Foto: Nick Ut | AP Photo)

Veneno diário

Herbicidas como o 2,4-D e o glifosato, conhecidos popularmente como “mata-mato”, costumam ser usados ilegalmente para capina química em estradas e terrenos baldios. Nesta semana, o Expresso das Praias teve acesso a uma denúncia que apresenta o mapeamento das áreas em Balneário Piçarras expostas ao uso dos produtos fora da regulamentação brasileira e outras situações preocupantes, como a presença de arrozal ao lado da Estação de Tratamento de Água (ETA) do município.

No Bairro N. Sra. da Conceição, os denunciantes filmaram pulverização aérea de agrotóxico sobre o cultivo de banana dentro de perímetro urbano.

Avião pulveriza veneno em bananal dentro do perímetro urbano, ao lado de residências, escola e creche (Foto: Reprodução)

A área descrita está a menos de 500 metros da escola e da creche que atendem a comunidade. Segundo os denunciantes, a aeronave flagrada tem registradas diversas infrações na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e costuma operar sem plano de voo.

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Em São Brás, a escola da comunidade também está cercada por plantações que recebem pulverização aérea constante por meio de avião que sobrevoa o prédio escolar com frequência:

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Estado omisso

A capina química por parte da Prefeitura e o uso indiscriminado de herbicida já foram alvo de denúncias no Expresso das Praias em diferentes situações. Em 2014, animais silvestres apareceram mortos às margens da BR-101 e foram analisados por pesquisadores da Univali.

Segundo eles, os animais foram envenenados por esse tipo de produto. Em outubro de 2016, leitores flagraram equipamento do município fazendo aplicação do “mata-mato” às margens da Estrada Geral de Morretes. O servidor que operava a máquina trabalhava sem equipamento de proteção individual.

Expresso das Praias denunciou capina química em 2016 (Foto: Reprodução)

De lá pra cá, pouca coisa mudou:

“Os fiscais da Cidasc estão em número reduzidíssimo e não houve contratação nas últimas gestões. O que surgiu é que o Ministério Público de SC, junto com o FCCIAT, tem fomentado a fiscalização e criado o programa “Alimento Seguro”, que coleta amostras de alimentos e agora de água”, avalia a pesquisadora Márcia Gilmara M. Vieira, da Univali.

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