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Professores, alunos e pais precisam construir estratégias para manter atividades

REGIÃO - Há mais de dois meses com atividades suspensas, a escola pública vive o desafio de retomar  as aulas de forma remota durante a pandemia de Covid-19. 

Nas plataformas digitais, alunos, professores e pais podem interagir, trocar informações e esclarecer dúvidas por meio de vídeo, áudio, imagens e textos. 

Mas essas facilidades ainda estão longe de quem não tem acesso à tecnologia e conta apenas com material impresso entregue pelas escolas.

As atividades remotas só começaram após o início do isolamento social, quando os estudantes já estavam há mais de 30 dias sem ter aulas. Durante esse período, as redes de ensino buscaram alternativas e capacitação profissional para trabalhar com as novas ferramentas.

“Essa semana eu consegui o material impresso para que a minha filha voltasse a estudar. Porque esse tempo todo estava sem estudar. Eles mandaram fazer um grupo no WhatsAPP, mas nem todo mundo consegue, né?!” - conta dona de casa Patrícia Dias, de 42 anos, que mora no bairro Itacolomi. 

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Alunos sem internet usam material impresso (Foto: Facebook)

Nova rotina

Assim como nas escolas do Estado, a ferramenta “Google Sala de Aula” está sendo adotada para gerenciar atividades nas redes de ensino dos municípios de Barra Velha, Balneário Piçarras e Penha. Os professores têm horários fixos para atender alunos e pais e a orientação é para que os conteúdos sejam repassados de forma gradual. 

“Eu tenho que dar um tempo para essa criança fazer a atividade e ter essa devolutiva. Não posso dar uma atividade hoje e querer que entregue amanhã, porque eu não vou saber se o pai teve tempo de estar ao lado, ou se teve tempo de acionar o celular”, explica a diretora pedagógica da Secretaria de Educação de Balneário Piçarras, Beta Schmitt.

Na rede estadual, onde esse processo começou antes, a implantação está em fase mais avançada e atendeu às necessidades de muitos alunos, como Marcos Mohamed. Ele tem 17 anos e se prepara para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

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Rede estadual foi a primeira a usar ferramentas como WhatsAPP durante a pandemia (Foto: Divulgação)

“Pra mim é muito mais simples pesquisar algo na internet do que ir atrás dos livros. Porém existem alguns  contrapontos. Não é todo mundo que tem acesso à internet. Tem gente que precisa usar a internet da vizinha. E isso é bem triste”, pondera o estudante do terceiro ano na Escola Alexandre Guilherme Figueredo.

Realidades paralelas

Interagir e facilitar a assimilação de conteúdos sem nenhum tipo de contato multimídia é ainda mais complicado para os professores. Por isso, construir uma estratégia para reduzir a defasagem entre alunos conectados e desconectados é uma necessidade.

“Existem alunos com muita dificuldade e que não têm acesso a nenhuma tecnologia… A grande preocupação é não ter um aluno que desponte e outro que fique embaixo. Manter todo mundo no mesmo patamar”, afirma o professor de matemática Márcio Kleber Cernach, que atua na Escola Antônio Manoel de Freitas, em Itajuba.

Ele acredita que entre 60% e 70% dos alunos tenham acesso à internet, estimativa próxima à média nacional apurada pelo Comitê Gestor da Internet (CGI). De acordo com os dados mais recentes (2018), a internet está em 67% dos domicílios no Brasil, mas ainda não chega nem à metade (48%) das famílias que estão nas faixas de renda “D” e “E”.

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Professores e alunos usam aplicativos de mensagens e adotam plataforma Google Sala de Aula (Foto: Divulgação)

Para muitas, o celular é o único meio de acesso e em 30% dos domicílios não há nem internet nem computador. 

Essa é a realidade para a família de Dona Romalina, que mora no bairro Itacolomi em Balneário Piçarras e tem quatro netos no Ensino Fundamental, que ela própria não chegou a concluir. Com problemas de visão, diz que não pode ajudá-los nas tarefas e resume a situação:

“Tá difícil, muito difícil”. 

Qual é a prioridade dela?  

“O alimento”, afirma.

A Secretaria de Educação informou que, junto com a Assistência Social de Balneário Piçarras, levantou todas as famílias de alunos inscritos no Programa Bolsa Família para realizar a distribuição de alimentos da merenda escolar durante a quarentena.

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Dona Romalina tem quatro netos na escola e enfrenta dificuldade para manter necessidades básicas (Foto: Ana Paula Salvador)

Ausência constante

Quem está conectado à rede também vê dificuldade em estudar sem a presença física do professor. O filho mais novo da dona de casa  Rita de Cássia Dias tem problemas de saúde e aprendizagem. A mais velha, que está no Ensino Médio, também encontrou dificuldades para acompanhar o ritmo das atividades:

“Como ficou tempo sem aula, ela disse: ‘Mãe, eles querem que faça um trabalho atrás do outro´. Então é muito ruim sem ter um professor do lado explicando”, avalia.

A estudante Milena Köche, de 17 anos, também está no último ano do Ensino Médio e pretende fazer o Enem. Ela  já recebeu algumas instruções a respeito da prova, mas ainda tem muitas dúvidas:

“Por um lado é bom, porque a gente não está perdendo nota. Mas por outro é ruim porque você não está se preparando adequadamente. Não tá tendo uma boa explicação…”. 

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Alunos devem ser avaliados durante e após a quarentena (Foto: Divulgação | Facebook) 

Desafio conjunto

Para os professores, há ainda a tarefa de encontrar mecanismos de avaliação que levem em conta essas diferentes condições de aprendizagem remota. 

“O aluno sempre está vinculado ao professor, então fica muito difícil para ele trabalhar de forma não presencial. E para o professor é muito difícil avaliar um aluno, porque a gente não pode avaliar apenas por uma folha de papel que chega. Nós temos que avaliar o contexto...” esclarece Anderson Roberto Barkemeyer, coordenador dos anos finais na Secretaria de Educação de Barra Velha.

Reduzir as defasagens geradas a partir da suspensão das aulas é uma tarefa que cabe não apenas aos profissionais do magistério.  Como lembra o professor de História nos anos iniciais, Eliseu Israel:

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“Porque se a gente manda o material para casa, coloca no sistema, mas os pais não cobram, muitos não fazem, porque não têm vontade de fazer”, constata.

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Diretores da Secretaria de Educação de Piçarras, Beta Schmitt e Valdinei Neves (Reprodução | YouTube)

Plano de reposição

Segundo a Secretaria de Educação de Balneário Piçarras, as primeiras semanas de experiência com o “Google Sala de Aula” devem fornecer parâmetros para avaliar os rumos a serem tomados durante e após a pandemia. 

“Esse ano, infelizmente, a gente já teve muitos problemas. Não vai conseguir fechar com todo o currículo programado”, afirma o assessor de apoio administrativo Valdinei Neves.

O objetivo principal será repor conteúdos e nivelar os estudantes que tiveram oportunidades e alcançaram resultados diferentes durante o isolamento.  

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