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Maiume Ignacio

Desde 2016, no pleito presidencial americano que consagrou Donald Trump, tornou-se visível a disseminação de notícias falsas pelo WhatsApp. O consumo e a crença nestas notícias é apenas um dos fatores que evidencia a perda de credibilidade na imprensa tradicional que, por décadas, ocupou o posto de detentora da verdade.

A cada dia, vemos mais pessoas sendo influenciadas por factóides que na maioria das vezes são fruto de uma combinação entre uma mentira bem contada e uma verdade que massageia o ego do leitor. A desintermediação, processo que se caracteriza pela falta dos mediadores tradicionais da notícia, é hoje um dos grandes desafios do Jornalismo.

Em 2018, chegou a vez de o Brasil sentir na pele os efeitos dessa nova forma de se informar. O presidente eleito, Jair Bolsonaro, fazia parte de um partido pequeno, sem muito tempo na TV e no rádio, por isso resolveu focar seu conteúdo nas estratégias digitais.

O uso do WhatsApp durante o processo eleitoral mostrou-se determinante para o resultado final. Uma enxurrada de notícias falsas veio à tona e aqueles que já não se informavam pelos veículos tradicionais passaram a credibilizar os textos recebidos pelo aplicativo de mensagens.

O jornalista tradicional perdeu a confiança de seus leitores, mas ainda pode fazer muito para recuperá-la. É preciso aprofundar a relação com o público, compreendendo que as pessoas estão cada vez mais atentas às contradições da prática jornalística.

Tudo começa pela transparência, financeira e editorial. É essencial que os veículos demonstrem quem são seus anunciantes, quais são seus interesses e como estes podem interferir no conteúdo produzido. Outro fator primordial é revelar qual a linha política adotada pelo veículo. A isenção é um preceito necessário, mas a imparcialidade figura como utopia.

Não basta somente demonstrar como se checa a veracidade de uma notícia, é preciso fazer isso com mecanismos mais populares. De acordo com a pesquisadora Tais Seibt, a checagem por vídeo ou áudio facilitaria o entendimento de muitos e ainda poderia ser compartilhada pelo WhatsApp.

Nas periferias, o desafio é mais antropológico. Para a pesquisadora Cláudia Nonato, a saída é buscar entender as necessidades desta parte da população.

A diversidade não pode nem deve ser deixada de lado. Jornais como El Pais e NYT adotaram editorias de gênero para melhor atender esta categoria.

Durante a campanha de Jair Bolsonaro, ficou evidente a falta de preocupação com mulheres e grupos LGBT. Resta ao bom jornalista reportar e monitorar as violações que possam se agravar e afetar com maior intensidade estes grupos.

Na Amazônia, como em qualquer outra zona distante do centro econômico do país, o combate deve ser feito contra a submissão, normatizada pelos processos de devastação ambiental. A cobertura deve abraçar a complexidade amazônica, deixando de lado os modismos da profissão.

A falta de recursos em pequenos povoados, cidades do interior brasileiro e comunidades rurais é outro grande desafio a ser enfrentado. Em todo o país, o jornalismo local sofre com modelos de empresas quebradas que inviabilizam a inovação. Dessa forma, a sociedade se vê à mercê da falta de informação.
Patrícia Gomes, diretora da JOTA, sugere que o jornalista se atenha aos dados gerados por seus usuários. Assim, será possível retomar o contrato de confiança com o leitor.

Se desencastelar. Esquecer que você não é o único capaz de produzir informação também faz toda a diferença. Ainda mais em um ecossistema cheio de robôs contratados para espalhar fake news.

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