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Praia na década  de oitenta: o processo de erosão já estava em andamento, mas não era evidente

Dia desses saiu na imprensa estadual que a praia de Piçarras havia sido destruída por ressacas em 2011. Nós, os nativos da cidade, sabemos que não é bem assim. Há muito tempo o mar avança sobre a faixa de areia – em Piçarras e em outras praias pelo mundo. 

Nos anos 1980 discutiam-se os motivos desse avanço e apresentavam-se razões e soluções diferentes para o problema. Só conjecturas, claro. Não se tinha qualquer estudo para embasar aquelas “teses” domésticas.

Mas, havia sim um dado interessante e hoje praticamente esquecido: o de que o mar sempre avançara sobre a praia de Piçarras; não propriamente na parte central da orla, e sim no extremo sul, junto à barra. Naquela região, a intervalos periódicos, rio e mar se juntavam e invadiam uma vasta área, chegando até o ponto onde hoje se localiza o edifício Anna Paula. Na época – primeira metade do século XX - era ali a residência e o armazém de secos e molhados de Antônio Quintino Pires, o marido da dona Anna Paula, razão pela qual ela batiza o prédio. 

Era Antônio quem organizava todos os anos um mutirão para abrir o canal que permitia o escoamento da água antes que ela causasse estragos ao armazém. A esse trabalho denominavam “furar a barra”. A informação me foi passada pelo filho de Antônio, Joaquim Ladislau Pires (que dá nome ao molhe do rio) durante uma entrevista em 2001 e não chegou a ser conferida com outros moradores do lugar.

Talvez com a publicação deste texto venham à tona mais versões. Quem as tiver e quiser mandá-las para esta coluna será muito bem vindo, porque é interessante revirar velhos baús e de lá tirar memórias que nos ajudem a entender o tempo presente.

Desde que se “furava a barra” até hoje muita coisa mudou em nossa orla marítima. Entre as décadas de 1950 e 1970 o barro cobriu o mangue que se estendia da foz do Rio Piçarras até o Anna Paula; também sepultou as duas lagoas existentes na região; na mesma época ali começaram a instalar casas (e mais tarde um camping) na área de influência da maré e a barra deixou de ser flutuante.

Aconteceu aqui o que se verificou em outras partes do mundo. Mesmo assim não posso afirmar que qualquer dessas alterações seja responsável pela erosão, pois não disponho de conhecimento técnico para tanto.  Contudo, penso ser relevante trazê-las ao debate, não para que julguemos as gerações passadas, pois tudo isso se fez em outro contexto, mas para que tenhamos elementos que nos permitam avaliar a situação atual e prospectar o futuro. 

E, justiça seja feita, não foi o mar que avançou sobre nós; fomos nós que avançamos sobre o território dele. Basta dar uma passada lá na Barra para constatar. Enfim, sabemos hoje que é preciso viver em permanente estado de alerta a fim de que a praia e seu entorno sejam preservados. Porque a natureza é dinâmica e segue seu curso. 

Até a próxima. 
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