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Nosso protagonista Juca Campina relembra a juventude e reflete sobre o tempo

Em 1958, os devotos do Divino Espírito Santo reunidos na Igreja Matriz Nossa Senhora da Penha durante o Pentecostes assistiram à coroação de um imperador que entraria para a história do ritual não só por tê-lo protagonizado naquele ano, mas também por se tratar do mais jovem imperador de que se tinha registro na comunidade até então. José Inácio de Souza Filho foi coroado antes de completar 27 anos de idade, confirmando a devoção familiar ao Divino e repetindo a trajetória do pai, Zé Campina, que recebera essa honraria 30 anos antes, em 1928.

Mesmo sendo tão jovem, José Inácio Filho já constituíra família e, portanto, habilitara-se a concorrer à vaga reservada aos casados. Nos rituais da festa, como reza a tradição, todos os parentes mais próximos se envolveram: a filha Marly Célia lembra-se ainda do vestido branco, rodado, que envergou com um misto de encantamento e respeito no cortejo daquele dia memorável – Eu era bem pequena, mas foi um momento tão importante que gravei apesar da pouca idade – ela observa antes que o pai intervenha para mencionar outra participação, a do filho José Inácio de Souza Neto, o Zezo, que integrou os ritos no papel de espadim.

Em 2018 seu Juca bateu outro recorde ao contar 60 anos da própria coroação. Ele já havia merecido homenagem dez anos antes quando se completaram as “Bodas de Ouro” do seu império: em 2008 foi reverenciado durante a 172ª edição da festa e, por conta da efeméride inédita, mereceu citação especial no livro “Penha Relicário do Divino”, da pesquisadora Maria do Carmo Ramos Krieger. Herança dos antepassados luso-açorianos, a devoção ao Divino Espírito Santo é, portanto, um marco na trajetória da família Souza, especialmente do nosso entrevistado, que também viu coroado Gilberto Reis e a sobrinha Rita de Cássia da Conceição Reis como o casal imperador em 2015.

O aluno esperto da professora dona Nuta que um dia seria o mais jovem imperador do Divino teve uma trajetória de muito trabalho desde que as tropas desapareceram dos caminhos e ele, de tropeiro destemido e companheiro do pai, tornou-se açougueiro pioneiro em Piçarras e dono de olaria a comandar vários empregados. Agora, finalmente, é chegado o tempo do repouso e da reflexão:

"Tudo passa, minha filha, tudo passa muito rápido" - ele repete a todo momento enquanto fala, recostado ao sofá, na sala da casa onde se destaca sobre a mesa de canto uma fotografia da esposa Rosalina, a dona Rosinha, falecida aos 82 anos em janeiro de 2014 e com quem criou os filhos Maria Cilene, Marília Celina, José Inácio Neto, Marly Célia, Mirian Celeste, Márcia Cecília, Antônio, João Ricardo e Mara Cynthia.

Hoje os descendentes se multiplicam, netos/netas, bisnetos/bisnetas que o cercam a todo instante nas confraternizações típicas da família numerosa que costuma se reunir com frequência. É a vida seguindo seu curso.

Até a próxima.

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