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Nosso protagonista narra aspectos pitorescos do trabalho a que se dedicou por mais de quatro décadas

A carreira de Ataíde Teixeira na Capitania dos Portos de Paranaguá se prolongou por 46 anos – de 04/04/1942 a 29/10/1988. Ao longo desse tempo, o jovem atendente de recepção passou a maduro escriturário e daí a respeitado e experiente agente administrativo. Ao completar 40 anos de serviço, em 1982, Ataíde quis custear uma festa para comemorar a data com os colegas, mas o comando da Capitania é quem fez questão de promover o evento de que nosso entrevistado se recorda com imensa satisfação.

 

E as homenagens não pararam aí. Um ano depois, em 1983, ele receberia do 5º Distrito Naval a medalha de mérito em uma cerimônia cheia de pompas. Já era considerado então um “patrimônio” da Marinha, pessoa a quem os sucessivos comandantes ouviam quando era preciso contornar conflitos no porto, muito frequentes entre os trabalhadores do cais. Ataíde, como funcionário da Delegacia de Trabalho Marítimo, era chamado a qualquer hora para dirimir problemas e até para pacificar os briguentos.

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- Isso não fazia parte das minhas funções e assim mesmo eu ia. Os fiscais que vinham de Curitiba, eles não iam pro porto à noite, tinham medo. Então o comandante mandava que eu fosse. Sabe quantas facas eu tinha na gaveta da repartição? Oito. Mas eu não denunciava porque se fizesse um relatório, eram 15, 20, até 30 dias de suspensão para o trabalhador, ou mais; e eu logo conseguia fazer o serviço voltar ao normal sem que ninguém saísse prejudicado. Eu falava com eles, eu, com esse tamanho [ele é magro e de baixa estatura], fazia ver que, se continuassem a brigar, iam acabar sendo penalizados; conversava com calma e acabava convencendo.

Com isso ele angariou muitas amizades. Tanto que, recentemente, durante uma visita à Igreja de Nossa Senhora do Rocio em Paranaguá, foi reconhecido por um estivador que lá estava. Reconhecido e festejado. O estivador, visivelmente emocionado, surpreso com o encontro inesperado, disse ter recebido de Ataíde o apoio e a orientação de que precisava para ingressar na estiva. Foi um momento gratificante.

No decorrer dessa extensa carreira, alguns episódios quebraram a rotina e marcaram a memória do nosso protagonista. Um deles ocorreu na década de 1970 quando um barco de pesca chinês encalhou no Superaguí em Guaraqueçaba. A Capitania foi comunicada pelos pescadores do local e tomou providências; havia apenas três homens a bordo e nunca se soube exatamente o que aconteceu com os demais tripulantes porque o inquérito ficou a cargo de um grupo da Embaixada chinesa; nada foi divulgado no Brasil.

- Presume-se que tenha sido um motim. Para o armador que veio da China o que interessava era o peixe. Ele não quis vender nada, fretou outro navio e levou tudo para a China. Era atum, o barco estava carregadíssimo.
Outra situação inusitada aconteceu no dia em que um menino de cinco anos pegou a locomotiva do pai na área de manobra da estrada de ferro próxima ao porto.

- Quando viram, já estava longe. Aí comunicaram Morretes para não soltar trem nenhum e saiu outra locomotiva atrás; quando alcançaram o trem, o menino estava sentado, dormindo. Deu na Gazeta do Povo, foi um estardalhaço. O Chacrinha mandou na época 200 cruzeiros para a família. O maquinista não foi punido porque o erro era manter as casas tão próximas àquela área.

Na próxima edição, Ataíde fala dos muitos amigos e dos conhecidos que povoam esta longa história.

Até lá.

Leia também: Na “terrinha”
 

 

Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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