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Nesta fase da história de Ataíde Teixeira, nosso protagonista encontra a casa dos sonhos

Em 1937, longe dos pais e dos irmãos e ainda sem registro de nascimento, Ataíde resolveu sair em busca de um emprego de verdade, onde recebesse um dinheirinho. Foi para o centro de Paranaguá e encontrou vaga na "Farmácia do Povo", que era de propriedade de Álvaro Vianna.

- Fausto Ríspoli, Joaquim Gonçalves, Alfredo Antunes, Afonso Gama Júnior, seu Magafá (esse cuidava das manobras dos vagonetes que acoplavam ao lado dos navios para o guincho pegar a carga no porto), todos pagavam a farmácia por mês e o meu serviço era cobrar as contas deles e de outros fregueses. Seu Alvaro recomendava que eu fosse nas casas e não no serviço para receber o dinheiro.

Mas não demorou nada o vai-e-vem das cobranças:

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- Um espanhol de nome José Trigo abriu um negócio de secos e molhados na Rua Direita, atual Rua Marechal Deodoro (a família dele morava na Estradinha), e eu fui contratado pra trabalhar.  O serviço era embrulhar em papel pardo as mercadorias que vinham a granel. Eu também entregava as compras nas casas, numa cesta grande e comprida daquelas com alças. Foi como conheci dona Candinha.

Ah, dona Candinha! O encontro com ela iria conferir à vida de Ataíde uma outra perspectiva.

- Eu levava as compras na casa de dona Candinha. A casa era comprida, tinha um corredor, sala de jantar, eu entrava, ia até a cozinha, lá eu punha as compras todas e cima da mesa e sempre ganhava um cafezinho com pão; às vezes, dona Candinha pegava um bife, passava na chapa e punha dentro do pão pra mim. Aí um dia eu criei coragem e perguntei se podia morar com ela.

Dona Candinha, ou Cândida Bittencourt da Cruz, não tivera filhos. Viúva, fez um acordo com outras duas senhoras:

- Eram três idosas que, sem parentes, se uniram na velhice. Dona Candinha, dona Maria e dona Florisbela. Elas moravam juntas na casa que era de dona Maria e aceitaram meu pedido para também morar lá. Dona Maria era polonesa, trabalhava para dona Candinha. Dona Florisbela era paraibana, mulata forte e alta, costurava muito bem, fazia aquela nervura nas fronhas. Quando precisava de bainha aberta, ela me mandava levar para dona Adelaide Dacheux, uma descendente de franceses, porque Paranaguá tinha muita influência dos imigrantes franceses. Dona Maria era da cozinha, ia no mercado de manhã para fazer compras de carne e legumes. (Ela tivera uma filha, Siroba, que morreu aos 19 anos.  Dona Florisbela também perdera o único filho).

Às 5 horas, já estavam todas de pé. Um senhor chamado Antônio também trazia compras lá em casa. A gente ganhava uma percentagem do que cobrava e do que levava nas casas. Coisa pouca, mas já dava para ajudar um pouquinho a vó Santa, que também era costureira. [A avó Santa, paraplégica desde os 7 anos de idade, costurava em urna máquina de mão]. Dona Candinha fornecia as refeições para Nivaldo Francisco Cordeiro, que trabalhava na estrada de ferro e era de Morretes, conterrâneo do marido dela, o major José Ricardo da Cruz, ex-combatente da Guerra do Paraguai [a Guerra do Paraguai ocorreu entre dezembro de 1864 e março de 1870]. As fardas e a espada dele foram levadas por Davi Carneiro, exportador de erva-mate que morava em Curitiba. Carneiro, dono de um antiquário, levou louças, levou tudo.

Na sala, tinha um tajer [espécie de cristaleira baixa] com louças e, sobre ele, duas compoteiras; na cozinha, um fogão enorme e bastante lenha que era preciso carregar para um depósito. Nos fundos da casa, ficava a Praça dos Leões. O quintal era enorme e eu passei a cuidar de tudo ali: plantava couve, salsa, cheiro verde. Havia um retrato da Siroba em cima de um móvel, eu plantava amor-perfeito no jardim, depois colhia e punha lá junto do retrato. Dona Maria ficava toda contente!

À tarde, sempre tinha visita, uma viúva com duas filhas. A viúva morreu, ficaram as duas. Uma casou; a outra, que se chamava Guilhermina, era professora de francês, depois que ficou sozinha, foi morar no Hotel Palácio. Ela continuou frequentando a casa de dona Candinha.

Nesse tempo todo, Ataíde manteve-se afastado da escola; a essa atura, mal tinha concluído o quarto ano do curso primário.

Continua na próxima semana. Até lá!

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Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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