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Damos seguimento à centenária história de Ataíde Teixeira, registrando uma trajetória que recompõe o cenário brasileiro do século XX

Na edição anterior, interrompemos a narrativa quando nosso protagonista recém-ingressara no curso militar. Mas isso não significa que ele foi servir ao exército tal como hoje em dia. Não. Naquela época, início dos anos 1940, o Estado Novo de Getúlio Vargas propunha uma alternativa a esse modelo. Deixemos que o próprio Ataíde explique do que se trata:

- Era o Tiro de Guerra, a gente fazia seis meses de instrução. Vinha um 1º sargento a Paranaguá toda quinta, sábado e domingo, trabalhava ordem unida em desfiles pelas ruas da cidade e aulas de conhecimento: montar e desmontar fuzil, reconhecer metralhadoras, essas coisas. Foi criado para que os jovens arrimos de família não precisassem se afastar de casa para servir.

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Embora não fosse um “arrimo de família”, Ataíde não podia se dar o luxo de deixar o emprego para cumprir o serviço militar. Então, aderiu ao Tiro de Guerra e saiu dali com a 2ª categoria de reservista; por pouco não se juntou aos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira na Itália. Chegou a ser convocado, no entanto, uma interferência da Capitania dos Portos da qual ele só tomou conhecimento depois acabou decretando sua permanência no Brasil.

Assim seguiram os conturbados anos de 1940, com o mundo dividido pela guerra na primeira metade da década e competindo pelo espólio da barbárie na segunda metade. Nesse tempo, Ataíde testemunhou muitos episódios hoje transformados em acontecimentos históricos. Entre eles o surgimento da Companhia Siderúrgica Nacional e a implantação da Fábrica Nacional de Motores, inicialmente uma estatal criada por Getúlio para suprir aviões e que se tornaria conhecida mais tarde pela fabricação dos até hoje famosos caminhões Fenemê.

A década de 1950 se iniciou fazendo jus ao slogan com que se tornaria conhecida: “Anos Dourados”. Pelo menos para Ataíde: estabilizado na carreira de funcionário público federal iniciada oito anos antes, já tendo conquistado uma promoção no serviço, ele agora se preparava para, enfim, realizar o sonho de pisar o continente europeu. Algo que parecia impensável para o garoto pobre nascido na distante Costeira do Pirajubaé estava prestes a se concretizar.

Acontece que, em 1950, o Papa Pio XII fez uma campanha junto aos governos no mundo inteiro para que todos facilitassem a ida de peregrinos a Roma naquele que havia sido proclamado como “Ano Santo”. Em cada capital brasileira foi criada uma comissão para organizar os grupos de fiéis católicos. O encarregado geral de toda essa organização era ninguém menos que Dom Hélder Câmara, Arcebispo emérito de Olinda e Recife que passou à história como um grande defensor dos direitos humanos, principalmente durante o regime militar.

- Eu já tinha algum dinheiro guardado, fui a Curitiba e me inscrevi. Custou 40 cruzeiros a taxa da inscrição em duas vezes (aí já não era mais réis, era cruzeiro desde 1942). O Dutra [Eurico Gaspar Dutra – Presidente da República – 1946-1951] cedeu um navio de transporte de tropa para levar os peregrinos, o navio “Duque de Caxias”. Naquele tempo, tinham umas companhias aéreas, entre elas a TAC – Transportes Aéreos Catarinenses. O embarque foi no Rio, em maio, lá recebemos nossos passaportes feitos pelo Vaticano especialmente para esta viagem; dali navegamos até a Bahia para pegar outros peregrinos; seguimos para Recife, onde paramos mais dois dias para que outros peregrinos embarcassem. Depois fomos a Tenerife [Ilhas Canárias, território espanhol], onde estivemos três dias e fomos à terra. Lá, na Praça da Rainha Vitória, pagamos duas pesetas para tirar fotografias ao lado dos camelos; custava cinco pesetas se a gente quisesse montar. Começamos a dizer ao homem que alugava os animais: - Este espanhol tá muito caro. Nisso, ele retrucou: - Eu sou cearense. Aí ninguém mais achou caro. Em Tenerife, visitamos a casa do Padre Anchieta e a capela onde ele foi batizado. A viagem era muito demorada, mas a gente não notava porque havia muito movimento a bordo. Depois do café, assistíamos à missa. Foi assim até que nosso navio atracou em Nápoles.

Continua na próxima edição.

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Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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