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Ataíde Teixeira compartilha mais lembranças dos anos vividos em Antonina, no litoral paranaense

Interrompemos nossa narrativa na edição anterior quando refletíamos sobre quantas mãos operárias e anônimas trabalharam para erguer o império Matarazzo, o maior complexo industrial da América Latina no começo do século XX. Nos anos 1920 e 1930, justamente quando se passa a primeira parte da história do nosso protagonista, Ataíde Teixeira, as Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo chegaram a empregar milhares de operários em diversos pontos do país e a registrar um faturamento bruto de 350 mil réis, quando todo o faturamento do Estado de São Paulo não passava dos 400 mil réis.

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Nem Ataíde nem o pai dele tinham ideia de que existisse tanto dinheiro. O operário, homem de quem se exigia trabalhar muito, e o filho dele, menino a quem se permitia brincar pouco, não costumavam compartilhar alegrias. Era um cotidiano áspero do qual Ataíde consegue fazer emergir a lembrança de um raro momento de lazer, sem os pais, é verdade, mas em companhia de outras crianças: os banhos de mar.

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- Naquela época, a gente não tinha brinquedo, não tinha nada. Nossa diversão era pouca, eu me lembro de uma prainha que havia perto do Matarazzo. Tinham os muros da indústria, as fileiras de casas e quando a estrada terminava, saía numa prainha. Eu, o Vadico, o Bebeco [os irmãos mais novos] e outros meninos, a gente tomava banho ali. Também ia um plantador de verduras, um japonês de nome Tanaka, ele era todo tatuado. A gente ficava impressionado. Eu nunca esqueci. Diziam que na chácara dele tinha um tambor em que ele tomava banho e depois na mesma água todos os outros membros da família se lavavam. Mas isso devia ser história do povo – ele completa, deixando a dúvida no ar.

Se Tanaka economizava água ou não, nós nunca saberemos. Certo mesmo é que os banhos de mar fizeram muito bem a Ataíde. Na época, significavam os poucos instantes de liberdade do garoto. Pergunto se não representavam também algum perigo, afinal, ele era ainda uma criança. Mas, não:

- A praia era rasa – ele diz. – A mamãe deixava a gente ir; às vezes, ia escondido.

Nessa prainha, Ataíde aprendeu a nadar e a mergulhar, algo que seguiu praticando na idade adulta. E por falar nisso, ele seria lançado ao mundo adulto precocemente. Mais adiante, vamos ver que um espaço de tempo não muito longo iria se interpor entre os furtivos banhos de mar e a hora de assumir a responsabilidade pela própria vida. Mas isso vem depois. Por enquanto, deixemos que se demore um pouquinho nas memórias da meninice, de quando frequentava a catequese com dona Castorina.

- Dona Castorina, eu me lembrei dela outro dia. Era a esposa do motorista do gerente do Matarazzo. Acho que não tinha ninguém para dar a catequese e ela fazia isso, descia do morro onde ficava a casa em que morava e vinha atender a gente. Tinha uma outra senhora que ajudava, mas não consigo lembrar o nome. No Matarazzo não tinha igreja, nem uma capela. Tinha escola e tudo, mas não uma capela. Então a nossa catequese era numa casa da vila.

Catequese, prainha, escola ... Quando tudo parecia estar-se acomodando, sobreveio o caos. Seu Campolino, o pai operário, sem mais nem menos anunciou uma nova mudança: saíra do Matarazzo e agora iria rumar com a família para outro destino, a inabitada e assustadora Serra da Prata.

Este é o assunto da nossa próxima semana.

Até lá.

Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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