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Saiba como Ataíde perseguiu o sonho de alfabetizar-se

Dando sequência à história do centenário Ataíde Teixeira, vamos encontrá-lo ainda meninote e morando no interior da Ilha de Santa Catarina, no lugar chamado Cachoeira do Bom Jesus. A memória prodigiosa do nosso protagonista vai desenhando o cenário da época:

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- Era uma estrada de areia, moravam por ali umas senhoras antigas; meu pai tinha um amigo que dirigia uma casa de negócio muito forte, chamava-se Leonel. Nós morávamos em frente a essa casa. Mais longe, tinha a escola. Eu ainda não frequentava, a gente quase nem saía, a mamãe não ia a lugar nenhum, vivia para a casa, para a cozinha. A comida era pouca, arroz era caro, quase não se comia; o pão, também não. Era mais banana cozida, peixe cozido ou assado na chapa. Era uma vida dura. Para cortar os cabelos, mamãe levou anos... Incrível!
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A rotina doméstica a que as mulheres se submetiam só era quebrada de vez em quando. Ataíde relembra uma dessas ocasiões:

- Nesse lugar, recebemos a visita de uma irmã da mamãe, tia Antonieta, e do marido dela, tio Raul. Houve um baile, eles foram e aconteceu lá uma encrenca. Daí saiu um pasquim:

“O Campolino gritava porque estava com fome.

O Raul também dizia: - Batuta, também sou ‘homi’.

Miliquinha do Lisbão fez prego de polegada, o Lisbão levou biscoito pra comer de madrugada”.

Ataíde precisa explicar o significado dos termos para que o enredo ganhe sentido:

- A Miliquinha, filha do seu Lisbão, era solteira e não muito nova. Naquele tempo, quando uma moça ia para um baile e ninguém a tirava para dançar, dizia-se que estava fazendo prego. Os pasquins eram um perigo! – ele completa, referindo-se às sátiras rimadas e irônicas tão comuns à época e que despertavam nele a vontade de aprender a ler.

Complexo Matarazzo em Antonina, na primeira metade do século XX (Foto: Arquivo | Iphan/Paraná)
Complexo Matarazzo em Antonina, na primeira metade do século XX (Foto: Arquivo | Iphan/Paraná)

Mas esse desejo só iria se realizar alguns anos depois e muito longe dali. Em 1928, Ataíde mudou-se com a família para Antonina, no litoral paranaense, onde já estavam os avós maternos. O pai, Campolino, ia em busca de trabalho como pedreiro.

- Quando fomos para Antonina, eu já tinha uns 10 anos. Havia lá uma senhora idosa que morava no centro e dava aulas na Graciosa, se não me engano, o bairro era Saivá. Um dia, ela ia passando, saí de dentro de casa e perguntei se podia ir para a escola dela. A professora, de quem não consigo me lembrar o nome, disse: - Pode.

No dia seguinte, quando ela passou, eu a acompanhei. Nesse ínterim, não fazia dois meses que eu estava na escola, o papai mudou-se para o Matarazzo, uma vila maior, com duas carreiras de casas, e o grupo escolar era ali. O professor, Francisco, era bravo e ensinava mal.

Em frente de nossa casa, passava uma professora, dona Cidália [Rebello Gomes}, que vinha a pé, desde o centro, dar aulas em um bairro bem distante, o Pinheirinho. Vinha com os alunos que arrebatava na passagem dela, porque ensinava muito bem. Acredita que o professor Francisco os chamava de boiada? E eu acabei indo para a boiada, pois me encantei com a professora e passei a frequentar as aulas de Dona Cidália. Desemburrei com ela. Aí fiquei mais tempo, porque o papai levou uns dois anos trabalhando pro Matarazzo.

Esta parte da história, associada à saga das Indústrias Matarazzo no Paraná, continua na próxima semana.

Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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