Publicidade

Beto Carrero

Na celebração de Finados, uma reflexão sobre a finitude

O tempo é inexorável. Ele passa. E quando menos se espera, finda. Não o tempo das coisas, não o tempo do Universo, mas o tempo exíguo que nos cabe como seres humanos – ao menos neste plano palpável em que nos movemos desde o ventre materno. A reflexão parece bem apropriada a um espaço como este, dedicado a registrar trajetórias e, por isso mesmo, desafiado a resumir em algumas linhas tantas histórias de vida.   

Quando nos deparamos com tais narrativas, somos levados a pensar sobre como estamos fadados a lidar continuamente com rupturas e mudanças. O que em algum momento nos parece sólido e imutável, pode desvanecer-se em segundos, transmutar-se em algo nem sempre compreensível para nossos limitados entendimento e sentidos. O que assume em determinado instante muita importância, em outra fase e visto em perspectiva, pode diminuir ao ponto de tornar-se insignificante. E vice-versa. 

Publicidade
“Morte e Vita”: Óleo sobre tela do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt  (REPRODUÇÃO | Google Cultural Institute)

Não é nada fácil enfrentar esses paradoxos. Mesmo porque não se submetem ao nosso controle e quase sempre nos revelam o quanto é vão engendrar planos mirabolantes sob a ilusão de que tudo se conduzirá exatamente como desejamos. Percalços e perdas fazem parte da jornada de todos nós indistintamente; o que muda é a forma como cada um tem de encará-los, aceitando-os ou não. 

Deixar partir é um grande desafio: sair da infância, distanciar-se da juventude, concluir que uma etapa se encerrou para dar lugar à outra, tudo isso nos confronta com nossos medos e angústias ante o desconhecido. Mas nada se compara ao rompimento do fio tênue da vida. Uma premiada jornalista norte-americana de nome Joan Didion compartilha no livro “O Ano do Pensamento Mágico” (Editora Nova Fronteira, 2006) a dura experiência a que foi submetida depois de perder o marido e quase perder a filha única em um período de 20 meses. A Preamar selecionou e reproduz a seguir dois trechos brutais dessa delicada obra, tão reveladora da condição que a nós todos iguala. 

“O sofrimento não pode ser medido em distâncias. Ele vem em ondas, como num acesso, um ataque, em súbitas apreensões que enfraquecem os joelhos, cegam os olhos e transtornam o cotidiano da vida da gente”.

“Somos seres mortais e imperfeitos, conscientes da mortalidade, apesar de ficarmos empurrando-a adiante, o que acaba não funcionando devido às nossas próprias complicações. Quando choramos nossas perdas, ficamos tão transtornados que a gente chora, para o bem ou para o mal, também por nós mesmos. Pelo que nós éramos, pelo que não somos mais. Pelo que um dia não seremos de modo algum”. 

Até a próxima!

Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
Leia Mais

Publicidade
  • 1
X

Right Click

No right click