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Beto Carrero

Quando começamos a contar a história de dona Zófia Maria Ziobro, prometemos ao leitor revelar por que tinha ela uma irmã de mesmo nome - Maria Zófia. Esse fato sempre intrigou quem conheceu a ambas trabalhando na área da saúde pública em Piçarras. Dona Zófia Maria era dentista e dona Maria Zófia, enfermeira-obstetra. As duas não possuíam o mesmo sobrenome (Maria Zófia assinava Bonikowska Schubert), mas se apresentavam como irmãs.  Neste, que é o nono episódio da série sobre a vida de Zófia Maria Ziobro, ela finalmente revela como foi esse encontro. 

E mais. Acompanhe primeiro a incrível sobrevivência do irmão mais velho, Jan, que havíamos deixado na edição passada hospitalizado na África do Sul, recuperando-se de um naufrágio. Leia o relato:

- Lá, ele se restabeleceu um pouco e o mandaram para a Inglaterra, onde fez escola de aviação, entrou para a RAF – Royal Air Force, e já trabalhou durante a guerra, serviu mesmo, jogava as bombas na Alemanha, chegou a cair com o avião. O fato é que ele sobreviveu. Mas tinha um colega da Polônia, ainda da escola, andaram juntos na escola quando meninos, ele estava junto naquele grupo de aviação; Jan disse que o avião do colega foi atingido também, caiu, e o colega ficou preso e morreu queimado dentro do avião, não teve jeito de socorrer...

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E Antônio, o irmão do meio?

- Quando nós já estávamos na Pérsia, trouxeram o Antônio também. Ele não tinha roupa, eu queria lavar a roupa dele e ele não tinha o que vestir, então botei o meu vestido em cima dele, eu sei que ele queria ir no banheiro masculino e deu uma confusão lá. A gente querendo ajudar e olha o que acontece! – ela sorri, meio sem jeito.

Na Pérsia, moravam em um prédio grande, um alojamento. 

- Lá na Pérsia começou a se formar uma escola militar das meninas, então eu me candidatei e junto com aquela escola nós paramos no deserto do Iraque, ficamos uma semana, eu acho, nas tendas, no deserto, os chacais uivando de noite. Mas eu não tinha medo. Havia guardas de noite, a única arma que nós tínhamos eram apitos. E lá não tinha banheiro. Tinham barracas de homens e barracas de mulheres. Sei que quando chegou a noite pra eu ficar de guarda, um senhor saiu da barraca e eu chamei a atenção dele. Então ele falou assim: - Vai fazer o quê, apitar?

As barracas eram todas iguais e tinham esteiras colocadas no chão onde a gente dormia. Não tinham camas, eu fui na minha barraca para poder entrar, para achar o lugar onde eu dormia no chão, e entrei na barraca dos homens, tratei de juntar a minha roupa e saí de fininho. 

Durante todo esse tempo a agora adolescente Zófia esteve longe da mãe, que a essa altura estava trabalhando como enfermeira em um hospital na Faixa de Gaza. Mais tarde ela seria transferida a outro hospital, perto do Canal de Suez, para onde eram levados os feridos na Itália. 

- Depois de um tempo nós fomos mandados para a Palestina, em caminhões. Chegamos em 1943. Lá conheci Marisha (Maria Bonikowska Schubert). Nos deixaram num acampamento e eu era muito chata, muito enjoada, nós tínhamos que ir buscar a comida em marmitas, lavar as marmitas e limpar direitinho. Marisha estava sozinha e eu estava sozinha. Marisha tinha muita paciência comigo, e limpava a minha marmita. A Marisha tinha dois irmãos menores, ela pegou malária e havia perdido os pais na Rússia; estava doente, enquanto isso levaram os irmãos dela para o orfanato na África do Sul, porque ela não podia cuidar deles. Nós ficamos perto, juntas, no Sul da Palestina. Nós mudávamos de vez em quando de acampamento: primeiro, era Gedera (1943); depois, Rehovot, depois, Jenin. No fim, nós ficamos mais tempo em Nazaré e lá nos aproximamos mais ainda; naquele tempo (1944), na Palestina, a minha mãe já trabalhava no hospital militar e esse hospital foi transferido para AlCântara, no Egito. 

Continua nas próximas semanas.


* Jane Cardozo da Silveira, jornalista com mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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