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PREAMAR
Padaria Telles: um marco na cidade desde a década de 1940

Quando eu era criança, na década de 60, quem morava no centro de Piçarras comprava pão no Seu Telles, carne no Seu Juca, aviamentos no Seu Fleith, remédios no Seu Osório, secos e molhados no Seu Aurélio, ou no Seu Maneca (pra mim, o tio Maneca). Havia um pouco de tudo na venda do Seu Lauro Pinto, enquanto tecidos e chapéus ocupavam as prateleiras da loja do Seu Udo. Os homens faziam barba e cabelo com o Agenor e o Zequinha e da beleza das mulheres quem cuidava era a Dona Tina. Mais que comércios, cada endereço representava uma pessoa, um perfil, personalidades, valores.

Eram referências que foram desaparecendo. Só uma resistiu: a Padaria Telles, com seus 70 anos de existência completados em 2013. Agora, ela também se vai. A propriedade foi vendida e o prédio provavelmente será demolido para dar lugar a outro empreendimento. 

Que pena! Porque em meio a tanta descaracterização, era reconfortante ir ao centro e ainda reconhecer nele alguma coisa daquela “velha infância”. Especialmente depois que saiu de cena o antigo Hotel Piçarras, deixando literalmente um buraco na paisagem.

Não, eu não sou saudosista, embora os parágrafos acima passem essa impressão. Tampouco contra mudanças.  Preocupa-me, contudo, a falta de registros da nossa memória e o desaparecimento indiscriminado de tudo que possa contê-la. 

Quem sabe neste 2013, em que completa 50 anos de emancipação, Piçarras possa iniciar um movimento de pesquisa e organização de seu acervo histórico. Se não é mais possível que ele encontre lugar num prédio-referência, como é o da Padaria Telles e foi o do Hotel Piçarras,  então em outro endereço. Importa é começar em algum ponto. 

 
Fachada original da residência e comércio de Francisco Leopoldo Fletih (FOTO: Arquivo de Alcina Figueredo)
 

Particularmente, eu gostaria de ver exposta em local adequado, para ser compartilhada, a obra do artista Luiz Telles, amigo pessoal, personalidade admirável sob todos os aspectos. Assim, quem não teve a oportunidade e o privilégio de conhecer Luiz, como eu tive, poderia entrar em contato com ele por intermédio das criações que nos legou esse talento que se foi precocemente, mas continua entre nós graças a sua arte. 

Seria importante termos um espaço onde pudéssemos intercambiar lembranças.  Entender a importância desse intercâmbio é fácil. Basta usar esta coluna como exemplo. Sei que, enquanto lê essas linhas, muita gente pensa:

 – Nossa, ela esqueceu tal coisa, não se lembrou de tal loja, nem de tal pessoa! E cada um daqueles nomes citados no início daria uma história e tanto! 

É isso mesmo, dificilmente registramos a trajetória dos que nos cercam. A rotina nos absorve, a memória nos trai; e entre outros fatores, a idade de cada um define do que se lembrará. Gerações anteriores à minha com certeza têm muito mais contribuições a dar a este pequeno texto. 

Precisamos de ajuda para lembrar, dependemos uns dos outros para nos construir. Só em conjunto vamos proteger nossa identidade da ação do tempo e nos sentirmos menos órfãos a cada vez que empresas, prédios, fachadas se deteriorem e se percam. Porque, a despeito da transformação material, manteremos intacta a memória das pessoas e o legado de cada uma delas. Enfim, nos conformaremos ante a efemeridade das coisas e o curso inexorável da vida. 

Até a próxima!
Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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