topo outroolhar
Itapocoroy surgiu como um porto onde eram feitos os embarques e desembarques entre São Francisco e Desterro.

Nós, que vivemos ao Sul do Equador, temos em março o início do outono. As temperaturas começam a baixar e convidam ao recolhimento. A alguma leitura, quem sabe?   

A proposta desta coluna semanal é justamente esta: a de convidá-lo à leitura, enquanto vamos discorrendo sobre temas variados que, esperamos, sejam do interesse das comunidades de Piçarras, Penha e Barra Velha, área de abrangência do Expresso das Praias. 

Como assunto de estreia, trazemos hoje e nas próximas semanas um pouco da história de Penha e Piçarras.  Três argumentos justificam a escolha do tema: 1.estamos falando de começos; 2.temos um estudo nunca publicado sobre as origens dos dois municípios e 3.observamos que antigas (mas nem tanto) referências locais estão-se perdendo e com elas a identidade da gente.

Não se trata de saudosismo – aquela nostalgia excessiva que nos prende ao passado; menos ainda de xenofobia – essa detestável aversão ao estrangeiro que tanto mal causa à humanidade. Mas, sim, do entendimento segundo o qual identificar-se como parte de um grupo contribui para elevar nossa autoestima e melhorar nosso relacionamento social. Afinal, só quem respeita a si mesmo é capaz de respeitar o outro.

Então, vamos lá.

A região da foz do Rio Itajaí tem uma história em comum calcada na miscigenação de muitos povos: índios, lusos, africanos, açorianos, alemães, italianos, sírio-libaneses (entre outros).

De acordo com o historiador José Ferreira da Silva, os primeiros habitantes de Piçarras e Penha – afora os índios, é claro - eram descendentes de paulistas vindos de São Francisco do Sul. Outros historiadores, como Walter Piazza e Oswaldo Rodrigues Cabral, acrescentam a esse grupo, aventureiros chegados aqui diretamente do continente português. Estavam em busca de ouro, prata, pedras preciosas e de índios, que aprisionavam para vender nas cortes europeias. 

O povoamento do nosso litoral também ganhou força por conta da política do “uti possidetis” defendida pela Coroa Portuguesa: o território pertence a quem dele faz uso. Assim, Portugal tratou de reforçar sua presença na região Sul do Brasil. Uma das estratégias que empregou para isso foi o desmembramento da Capitania de Santo Amaro e Terras de Sant’Ana, com a criação da Capitania de Santa Catarina, na segunda metade do século XVIII. 

A nova Capitania foi, então, repartida em duas: da baía de Guaratuba, na divisa com Paranaguá, até a ponta norte da Enseada das Garoupas (atual Porto Belo), ficou sendo Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco e daí para o sul, incluída a povoação da Ilha de Santa Catarina, seria Santo Antônio dos Anjos da Laguna.

Por essa época, já havia muitos vicentistas e lusos na região, já que a fundação da Vila de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco em 1658 marca o início do povoamento sistemático da costa catarinense. 

Em 1675 nasce outra povoação - Nossa Senhora do Desterro, cerca de 160 quilômetros ao sul de São Francisco, e entre esses dois pólos inicia-se um fluxo de pessoas e mercadorias. 

Por causa disso, na primeira metade dos anos 1700, já havia um núcleo de povoação a, aproximadamente, 26º 46’ de latitude Sul e a 48º 38’ de longitude Oeste, ao qual denominou- se Itapocoroy ou Itapocoróia – termo da língua Tupi cujo significado é “que se parece com um muro de pedra”, ou ainda “pedras alagadas”, escreveu José Ferreira da Silva. 

Itapocoroy surgiu como um porto onde eram feitos os embarques e desembarques entre São Francisco e Desterro.  A fim de renovar as provisões, os navegadores aportavam e adquiriam dos moradores produtos como farinha de mandioca, peixes, frutas, batata doce, bois, porcos e galinhas. 

Mas isso já é uma história para a semana que vem. Até lá!

O jornalista e escritor José Ferreira da Silva (prefeito de Blumenau  de 1938 a 1941) é  a principal referência bibliográfica para os pesquisadores da história da região

 

Leia também:
X

Direitos Reservados

No right click