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O casal Zequinha e Herondina em um raro registro fotográfico

 

Saiba como funcionavam as farmácias de antigamente em mais um episódio da história de José Pedro da Silva

 

“Desde cedo, pequena ainda, eu já trabalhava como empregada doméstica; com 13 anos fui trabalhar até em Curitiba, levada pela minha irmã mais velha. Lá era bem tratada e tudo, só que não aguentei a saudade e voltei pra Piçarras”. Essa fala é de Herondina, a esposa do nosso protagonista do mês. Pegando o fio da meada que deixamos solto na semana passada, ela ‘tece’ uma fase da vida em que se recolhia em si mesma para se proteger de um mundo inóspito. Dina chegou a trabalhar em uma casa, em Joinville, onde a patroa quando saía a deixava confinada em uma parte do imóvel – a cozinha, os ambientes de serviço -, impedindo-lhe o acesso às áreas sociais da residência, que ficavam trancafiadas durante a ausência da proprietária.


Nessas condições, era mesmo preferível regressar a Piçarras e trocar laranja por pão na escola só para ficar perto daqueles que a reconheciam como igual.


Contudo, depois do casamento com José Pedro da Silva, o Zé Trovador, o Zequinha da Farmácia, as lembranças daqueles tempos de sacrifícios e carências foram ficando cada vez mais distantes, esmaecidas ante o colorido de uma vida nova.


O cotidiano da jovem Herondina se transformara: ela agora se ocupava da própria família, que florescia sobre a Farmácia São João. Primeiro, veio Leila; depois, Clarice; chegaria ainda uma terceira menina, Ângela. E, antes dela, o garoto, Nazareno, que era aguardado para o Natal, antecipou-se em mais de um mês, contudo, manteve o nome. O leitor possivelmente vai identificá-lo melhor pelo apelido: o “Naza” do cachorro-quente. Precoce como o pai, Nazareno chegou cedo e mais cedo ainda partiu, deixando-nos a lembrança daquele capricho com que fazia saborosos sanduíches, elaborados com tanta assepsia quanto a que o pai um dia empregara para manipular as fórmulas farmacêuticas lá na “São João”.


Aluno aplicado do seu Osório, Zequinha aprendeu muito. Ele fazia medicamentos como pomada de sulfa, mercúrio cromo, iodex contra distensão muscular, antimicótico, solução de bismuto para combater diarreia, violeta genciana contra sapão e afta, solução de permanganato de potássio antibrotoeja, bronzeador à base de óleo de coco misturado a gotinhas de iodo.


Tudo isso quem recorda é Leila, que por ser a filha mais velha guarda muitas lembranças. Para nos ajudar nesse resgate, Leila tomou o cuidado de escrever anotações sobre minúcias da época.Acompanhe os registros:


Para fazer exame de diabetes, pegava-se a urina, colocava-se em um tubo de ensaio com um reagente, aquecendo-o em um fogareiro; se ficasse amarelo escuro, diabetes alta; caso contrário, normal. Não existiam seringas descartáveis, nem alto clave, elas eram de vidro de 10, 20 e 30 ml. Havia uma caixa de aço inox, botava-se álcool na tampa, fervendo-se na lata as seringas, agulhas, pinças e tesouras (usadas em curativos). Nos medicamentos manipulados, eram usados rótulos das farmácias N. Srª da Penha (vermelhos) e São João (azuis), com a inscrição ‘Farmacêutico responsável Renato José Wunderlich’. Para colar o rótulo empregava-se breu dissolvido em gás quente, transformando-o em goma arábica. O Laboratório E. M.S. praticava os preços acessíveis à época, eram produtos equivalentes aos genéricos atuais. Os frascos de injeção, como a de benzetacil, eram reutilizados para acondicionar e vender acetona, éter, amoníaco,... Eram aplicadas injeções por via intravenosa, intramuscular e subcutânea. A farmácia era um P.A. Ali só não se faziam partos.


Em 16 anos de convívio naquele ambiente, Leila aprendeu até mesmo a fórmula de alguns medicamentos. Lições que ela cultiva como parte importante da memória do pai. “Ele ia de bicicleta atender nas casas a qualquer hora do dia ou da noite e cortesias da parte da clientela não faltavam: peixes, camarões, pitus, banana, ovos, aipim ...”


No verão, a farmácia ficava aberta das 7 às 22h; no restante do ano, o expediente ia das 7 às 12h e das 13h às 22h. Para aguentar esse ritmo, Zequinha contou sempre na “São João” com uma auxiliar: Maria Pascoína Correa de Souza, irmã de seu Osório por parte de pai. Desde a inauguração da farmácia em Armação, ela foi morar com os Silva na esquina da saúde, no endereço onde a família viveu feliz por mais de uma década, até 02 de março de 1977, quando Zequinha e Herondina, agora com os quatro filhos, retornaram a Piçarras.


Mas essa é uma história para a semana que vem.


Até lá!

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