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Acolher o povo flagelado do Haiti é seguir o ditame de Deus ao povo hebreu que rumava a Canaã

 

Antes de iniciar uma nova série de entrevistas na semana que vem, a Preamar desta semana pede licença para voltar a um tema sempre envolvente: as festividades alusivas ao Divino Espírito Santo, recém promovidas pelas comunidades locais de confissão católica. Enquanto nossos vizinhos do norte e do sul já começam a pensar na grande festa de 2016, quando se completam 180 anos da tradição na Paróquia de Penha, convido o leitor a refletir sobre as origens do Pentecostes e as lições que oferece aos dias atuais.


Embora os rituais que incluem a coroação de um casal imperial sejam peculiares ao Catolicismo de origem portuguesa, o culto ao Divino e a celebração de Pentecostes são compartilhados por outras nações e confissões religiosas, uma vez que estão descritos no Antigo Testamento, livro sagrado também para várias religiões não ligadas ao Cristianismo. É claro que, para as comunidades cristãs, o Pentecostes assume dimensão muito diferente porque está relacionado à ressurreição de Jesus. Assim mesmo, os princípios de que se origina o rito são universais.


Conforme o prof. Tércio Machado Siqueira, da Universidade Metodista de São Paulo, inicialmente caracterizada como uma “Festa da Colheita”, a celebração é apresentada no Antigo Testamento como um momento de gratidão e de fraternidade, compromisso, solidariedade e reconhecimento da igualdade social, porque é uma ocasião da qual podem participar povos nativos e estrangeiros. Vistos como iguais, a todos é dado partilhar o pão, reconhecido como um dom da terra. Hoje, o hino ao Divino entoado pelos fieis expressa esses sentimentos: “Deus o salve esse devoto, pela esmola em vosso nome, dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome [...].”


O nome Pentecostes (quinquagésimo, em grego) está ligado ao tempo. De acordo com o capítulo 23 do Levítico, os hebreus libertados da escravidão no Egito deviam fazer uma oferta a Deus logo após a primeira colheita na Terra Prometida, e sete semanas depois uma segunda oferta, ambas em dia de domingo, para que jamais esquecessem a passagem do jugo à liberdade – a Páscoa judaica.


Uma outra explicação acrescenta que 50 foi o número de dias que os hebreus levaram para ir do Egito ao Monte Sinai, onde Moisés recebeu do Senhor as Tábuas da Lei.


Pelo Novo Testamento, é no domingo de Pentecostes, sete semanas após a Páscoa, que o Espírito Santo se manifesta entre os que creram na ressurreição de Jesus.


Independentemente da origem histórica ou do credo religioso – embora ambos sejam relevantes – o que fica evidente no Pentecostes e no culto ao Divino Espírito Santo é a atualidade dessa tradição tão remota. Hoje, como na Antiguidade, assistimos a povos escravizados e oprimidos, muitos sendo obrigados a empreender longas jornadas para fugir à fome e à falta de condições mínimas de sobrevivência. Vejam-se os haitianos em marcha para o Brasil, especialmente para nossa região, em que já podemos encontrá-los com frequência geralmente desempenhando trabalho braçal e tentando vislumbrar dias melhores num país estranho.


Quando os vejo, penso em como é urgente e atual seguir o ditame de Deus ao povo hebreu que rumava a Canaã: “Quando fizeres a ceifa em tua terra, não ceifarás até o extremo limite de teu campo, e não recolherás a respiga de tua ceifa; deixa-lá-eis para o pobre e o estrangeiro”. (Levítico, cap. 23, vers. 22).


Repartir, compartilhar, acolher, tudo isso está explícito na ordem divina, refletindo aqueles princípios de que falamos no início como sendo o sustentáculo do que hoje os devotos celebram em Pentecostes.


Não é difícil entender por que a tradição é tão forte em nosso país. É que formamos um povo cujos antepassados também tiveram, um dia, que deixar sua terra natal e encarar o desconhecido em nome da sobrevivência. Luso-açorianos; africanos (escravizados), alemães e italianos; libaneses, turcos e sírios; asiáticos, enfim, somos uma Nação fruto da diáspora de tantas outras.

 

Assim, acolhermos agora os haitianos não é só sinônimo de solidariedade, mas de coerência com nossas raízes, com nossa história e nossos antepassados, aqueles mesmos que nos legaram a fé, a esperança e o culto ao Divino em Pentecostes.


Até a próxima!

Author: Jane Cardozo da Silveira
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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