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PREAMAR
Não que se transformar seja ruim. Ao contrário: além de algo natural e inevitável, é também salutar – transformações são próprias de um universo que se expande continuamente e nunca é o mesmo no minuto seguinte. A transformação ameaçadora a que me refiro é outra: tem a ver com a perda da memória, a falta de raízes, o desconhecimento de nossas origens, formação socioeconômica, costumes, lendas, devoções, dizeres e saberes.  Tem a ver, em resumo, com a relação que mantemos com a nossa Cultura. 
O povo que desconhece a si mesmo corre o risco de descaracterizar seu patrimônio cultural. Fragiliza-se diante do processo de globalização e pode sepultar para sempre características que contribuem para uma identificação das muitas “gentes” que o constituem. 
 
Viver o presente assimilando as transformações naturais e mantendo ao mesmo tempo os fundamentos da própria identidade parece difícil. Mas é possível. Para isso é preciso cultivar a capacidade de seleção: saber o que assimilar e o que descartar do que nos chega de fora.  Essa capacidade, adquirimos com a ampliação do conhecimento sobre a nossa história e com o acesso à educação, fatores que, combinados, afastam o perigo da perda das nossas características originais e o risco de nos transformarmos num plágio do outro, mero pastiche sem qualquer solidez.
O geógrafo e professor Mílton Santos ensinava que “O conceito de cultura está intimamente ligado às expressões da autenticidade, da integridade e da liberdade. Ela é uma manifestação coletiva que reúne heranças do passado, modos de ser do presente e aspirações, isto é, o delineamento do futuro desejado. Por isso mesmo, tem de [...] resultar das relações profundas dos homens com o seu meio, sendo o grande cimento que defende as sociedades locais, regionais e nacionais contra as ameaças de deformação ou dissolução de que podem ser vítimas”.
Escudo de fé 
1962: os imperadores José e Ana Carvalho
1976: José Maximiliano e Maria Andrade 2013: Antônio e Cida Andrade  
A Festa do Divino Espírito Santo é, sem dúvida, um forte escudo contra tais ameaças. Celebrado na Penha há 177 anos, esse patrimônio pode ser mais bem compreendido quando o analisamos sob dois eixos: um - vertical; o outro - horizontal.
O primeiro refere-se às conformações familiares que vêm mantendo a tradição ao passá-la de uma geração à outra desde o século XIX. É interessante destacar como as famílias fundadoras do festejo na Penha conservam-se tanto entre os empregados da festa quanto entre os candidatos a Imperador. A honra de receber a coroa do Império pode alcançar ampla descendência, como já se registrou várias vezes e acontece de novo neste ano de 2013. Segundo informa Maria Donatila Batista, o primo dela e atual Imperador Antônio Francisco Andrade é filho de Maria Carvalho de Andrade e de José Maximiliano de Andrade, Imperadores em 1976, festa em que Antônio foi trinchante, o equivalente a um ministro de estado responsável por carregar a coroa. Antônio também é neto do Imperador de 1961, João de Deus Carvalho e sobrinho do de 1962, José Carvalho, de quem foi espadim – menino que representa um soldado da corte. 
José, filho de João, indicado pelo pai, teve seu nome sorteado no mesmo ano em que entrou na lista de candidatos. Já Antônio precisou esperar 36 anos para experimentar a mesma emoção. Mas perseverou e reina agora junto com a Imperatriz Maria Aparecida Oliveira Andrade. É o compromisso com o sagrado que se perpetua. 
Fortes laços
No eixo horizontal, a Festa do Divino Espírito Santo na Penha é responsável por promover um contato entre as comunidades de Penha, Balneário Piçarras, Navegantes e Itajaí. Sem esse espaço de convívio anual, as quatro cidades talvez já estivessem muito distanciadas umas das outras. No entanto, o encontro marcado para o Pentecostes, e que começa mais ou menos dois meses antes com as visitas da Bandeira, encarrega-se de manter entrelaçadas essas populações, oferecendo-lhes como elemento de confraternização um valor em comum – a fé no Divino.  É durante a visita da Bandeira, a novena preparatória e o tríduo festivo que as pessoas se reveem, se reconhecem, são apresentadas aos novos membros das famílias festeiras, renovam seus laços de amizade e de afeto. 
Por isso preparam seus melhores trajes. Não é simplesmente para exibir-se diante dos outros, mas para ser aceito por eles e para demonstrar também o quanto aquele momento do ano é importante. Porque é hora de reverenciar o sagrado, de demonstrar respeito pela força do Espírito e de sentir-se pertencente a um mundo conhecido e seguro, em que somos confortados pela fé. 
Quando se erguem os pavilhões e ostentam-se as fitas vermelhas em que se lê “Vinde, Espírito Santo!” não se está somente repetindo um ritual, mas reafirmando-se esse sentimento de agregação que nos mantém vivos.  Somos iguais, somos irmãos. Nativos ou vindos de outras paragens, ao entendermos os múltiplos sentidos da Festa do Divino, tornamo-nos gente de casa. Comovemo-nos com os rituais; o bater do tambor, o som da viola e o gemido da rabeca mexem com nossa memória genética. E, por mais que já tenhamos visto cada passo da celebração, todo ano nos emocionamos como se os presenciássemos pela primeira vez.   
São quase dois séculos de tradição. Número impressionante se levarmos em conta que a nossa fragilidade diante das importações culturais aumenta à medida que as novas tecnologias, os meios de transporte e de comunicação redimensionam o tempo e o espaço. Para o sociólogo espanhol Ignacio Ramonet, um mundo muito pequeno, pequeno em termos de cultura e criatividade, surge como consequência desse redimensionamento. É assim, diz ele, que na sociedade mundial contemporânea, sob o fenômeno da globalização, as características da cultura economicamente dominante são impostas como modelos universais.
Mas a tudo isso a Festa do Divino resiste. Como diz o hino sempre entoado pelos devotos: “A bandeira segue em frente, atrás de melhores dias.” Não é pouca coisa, nesses tempos de internet e mídias tridimensionais.
Boa Festa e até a próxima!
Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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