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João Santos Vieira  fala dos antepassados e descreve rotinas de trabalho que se perderam no tempo

A cidade na memória de quem já conduziu os destinos do município

 

Um dos moradores mais antigos da beira-mar em Piçarras, de família tradicional nas artes da pesca. Foi o segundo prefeito eleito do município, tendo assumido o mandato em 1970.


Leitores mais velhos, nascidos e criados nestas bandas, talvez já saibam de quem estou falando. O personagem focalizado pela Preamar nesta semana – e nas próximas - é João Santos Vieira. O seu João, casado com a dona Isaura, amigo de juventude do meu pai, Zequinha Cardozo.


Por isso mesmo, sinto-me em casa quando chego ao último degrau da escada que leva ao apartamento do casal, ali ao lado do Hotel Imperador, na parte sul da Avenida José Temístocles de Macedo. Nesse endereço, onde sou tão bem recebida, seu João nasceu em 14 de setembro de 1937:


- Eu nasci em cima desse terreno. Eu nem era nascido ainda quando a minha avó veio de São Brás num carro de boi com três filhinhas e chegaram aqui. Aí ela pegou uma foice e roçou tudo isso. Ficou morando aqui com as três meninas. Ela trabalhava com os Pinto e Figueredo, pilando café. Naquela época, faziam café de coquinho”, diz, empregando uma expressão nova para mim. Então, pergunto: como era isso, seu João?


A explicação vem detalhada e logo concluo que café de coquinho é outro nome para o café em grão. Nesse momento, percebo que tenho diante de mim um excelente narrador e quero registrar cada uma das suas palavras:


- Aqui tinha muito cafezal nativo; eles colhiam o café e ele ia pro secador, no sol. À noite, recolhiam. No outro dia, colocavam de novo no sol. Eram uns carretões. Ela pilava aquele café pra sustentar as três meninas. Então, aquele grão – que chamava-se coquinho - quando saía do pilão, era soprado, ou se botava onde tinha bastante vento pra sair a palha. Dali, era ensacado e transportado para o Rio de Janeiro num barco que se chamava São João.”


[Esse barco, conforme me disse em entrevista muitos anos atrás o seu Joaquim Pires, pertenceu a Alexandre Guilherme Figueredo].


Embora fosse muito trabalhoso, pilar o café não era suficiente para garantir a comida na mesa. Por conta disso, a avó tinha uma outra ocupação:


- Ela também era doceira, fazia doce pra vender nas festas de Nossa Senhora do Rosário e do Divino Espírito Santo. O vendedor dela era o seu Mané Pires e o seu João Duarte. Eles vendiam doces numa cesta -.


Até aí, ainda não sei o nome dessa mulher tão determinada, e seu João logo atende a minha curiosidade:


- Minha avó se chamava Adélia, era viúva. O marido dela era lavrador. Quando ele faleceu, ela veio embora lá do interior. No decorrer do tempo, lá um belo dia, vem aquele cidadão com um saquinho nas costas, pela praia. Naquela época, a praia era muito grande, quando a maré baixava ficava muito bonita. Esse senhor vinha andando pela praia e chegou aqui na frente; tinha um rancho de canoa. Ele entrou pra dentro do rancho e ficou ali. Esse homem era pescador. No segundo dia que tava aqui no rancho, pediu emprestado uma canoa de uma madeira só e foi pescar lá no Itacolomi. Sozinho. Veio com seis mangonas. Segundo a história conta, esse homem era muito forte. Ninguém sabe bem de onde ele veio. Só que era um ótimo pescador. Pescava sozinho. E gostava de pescar na pedra.”


Quem seria esse homem misterioso? Seu João vai revelar essa história – e mais – na semana que vem. Até lá!

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