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Como se explica o fato de Armação do Itapocoroy ter originado os municípios de Penha e Piçarras e não ter, ela própria, se emancipado? Os leitores que acompanham a Preamar devem estar-se perguntando isso.

Acontece que, ao fim do século XVIII, já tinham caçado muita baleia na região. O historiador José Ferreira da Silva escreveu que teve ano de matarem 100 baleias. E, como era de se prever, a caça intensiva reduziu significativamente a presença desse mamífero no litoral catarinense, o que levou ao declínio das armações. 

Com isso, a economia local, que sempre esteve dividida entre a pesca e a agricultura, voltou-se para o campo. É uma característica dos povoados surgidos a partir da Enseada do Itapocoroy esta dedicação dupla e concomitante – à agricultura e à pesca.  Numa entrevista concedida em 04 de setembro de 2001, Manoel Ladislau Pires, então aos 93 anos, atestava esse arranjo produtivo: “Um pouco a gente pescava, um pouco plantava. Quando um não dava bem, tinha o outro”, me contou o saudoso tio Maneca.

A agricultura, portanto, substituiu a atividade baleeira como principal fonte de renda e contribuiu para consolidar um novo povoado, ao norte da Armação do Itapocoroy. Era o Arraial de Nossa Senhora da Penha, onde, em 1825, foi erguida uma capelinha dedicada à padroeira. A partir daí, a ocupação das áreas mais distantes da orla marítima iria se intensificar, com os povoadores indo em busca de terras para o plantio de mandioca, milho, cana-de-açúcar, arroz e algodão e também para a criação de gado. 

Os engenhos de farinha de mandioca proliferaram, como também os alambiques, onde se produzia açúcar e aguardente a partir da cana-de-açúcar. 

O professor Oswaldo Rodrigues Cabral ensinava que, em 1796, a produção do litoral catarinense consistia de arroz, milho, feijão, açúcar, algodão, aguardente, cachaça, melado, telhas e tijolos, além de favas, trigo e cevada, em menor escala. Os derivados da baleia continuavam também a integrar a economia local.

De acordo com o pesquisador Luiz Ferreira da Silva (filho do historiador José Ferreira da Silva), em 1803 a produção de Itapocoroy contava 26 quintais  de algodão (um quintal equivale a quatro arrobas, mais ou menos 60 quilos), 26 de açúcar, dois quintais de tabaco, 300 de arroz, dois quintais de café, duas arrobas de linho, 60 dúzias de madeira e 1400 medidas de aguardente, “tudo no valor total de 3 mil 602 cruzados.” 

No que se refere à conformação étnica, como já informado em edição anterior, o povoado do Itapocoroy era constituído, originalmente, por índios, brancos e negros, que foram se mesclando até compor uma população miscigenada. Aos paulistas-vicentistas juntaram-se os açorianos provenientes de Nossa Senhora do Desterro   e espanhóis remanescentes dos invasores da Ilha de Santa Catarina.

É importante destacar nessa  composição étnica a presença dos africanos, que foram trazidos em maior número após instalada a armação para trabalhar como escravos na manipulação da baleia. 

A contribuição afro à cultura local é das mais expressivas, embora por muitos anos tenha ficado injustamente relegada a segundo plano. Não que a população negra tenha se reduzido, ao contrário. Entretanto, foi só a partir do fim da década de 1990 que um movimento surgido em Piçarras retomou espaço nas comunidades locais para manifestações culturais originárias da África.  Mas isso já é uma outra história. 

A PESCA DA BALEIA EM ARMAÇÃO DO ITAPOCOROY
descrita pelo piçarrense que batiza o molhe da barra, Joaquim Ladislau Pires, durante entrevista concedida em 2001, quando ele tinha 71 anos de idade 
 

“Os pescadores dizem o seguinte: era uma lancha baleeira, ia o patrão na popa, atrás; seis remadores no meio; três remos de voga de cada lado e o arpoador na proa, com uma corda e um arpão. O arpão era tão amolado que dava de fazer a barba. Então, eles chegavam em cima da baleia com a lancha baleeira, aí arpoava, quando ele arpoava já gritava, o remador dava a ré. Seis remos de voga numa lancha baleeira, a dar ré, aquilo dava um pulo igual a um cavalo, para escapar do panaço dela – chama-se panaço. Aí ela mergulhava, sentia aquela dor, aquele arpão atrás da nuca. E aí quando chegava lá que ela boiava, eles fincavam uma bandeira, pra não misturar com a dos outros, porque senão tinha algum que queria e aí dava briga. Aí traziam pra terra, os escravos e os lavradores ajudavam a escalar. As ruínas inda estavam lá, mas desmancharam os tanques, era o engenho de frigir. Sabe onde era? Era ali perto do Bastinho, depois do Alírio, vem, vem [explica, gesticulando] não tem uma subida? Depois da subida. Meu pai [o comerciante Antônio Quintino Pires] comprou um tacho daqueles. Trouxe em três cavalos, de grande que era. Era feito de cobre. E esse azeite [o que era retirado das baleias nesses tachos] era levado para o Rio de Janeiro, para iluminar os lampiões do Rio de Janeiro. Tinha ano de matar 52 [baleias]. Então o padre confessava os homens, eles se despediam da família e iam atrás da baleia. E lá, não dizem que tem a Ponta da Vigia?  È Ponta do Vigia – e cá não tem a Praia da Paciência?  Porque eles ficavam esperando aí. Então não tinha domingo, não tinha segunda-feira; o fogo aceso; daí a origem do nome. Quando elas apareciam o vigia gritava de lá, aí os escravos ajudavam e os lavradores. E o refrigerante da época: laranja, muita laranja. E tinham os engenhos de frigir. Isso aqui é cheio de osso. A baleia aqui antigamente era tanta que acordava o meu pai de noite. Ela berra como o boi. Então ela vem pra cá porque a água é quente e lá fora tem um camarada que ataca o cachalote, o filho dela.” 

Até a próxima!

 

 
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