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Os açorianos, de quem descende grande parte das famílias fundadoras de Piçarras e Penha, têm costumes e características que variam de uma ilha para a outra. Como prometemos na edição anterior da Preamar, é sobre tais diferenças que escrevemos nesta semana. 

Então, vamos lá: cada recanto de cada uma das nove ilhas açorianas têm suas peculiaridades, os trajes típicos são diferentes, as cantigas se distinguem umas das outras, assim como os sotaques. Há quase 13 anos estive em São Miguel - a maior ilha da República Autônoma dos Açores, sede administrativa do lugar – e presenciei lá um grande festival com a participação de grupos folclóricos de dança popular vindos de todo o arquipélago, do continente português e até de colônias existentes nos Estados Unidos e no Canadá.

Denominado Gala Internacional, o festival ofereceu uma profusão de trajes, versos, músicas em que os açorianos revelaram toda a sua pluralidade cultural. 

Mas, embora o palco do festival tenha sido interessante, foi nas ruas que consegui entender melhor o perfil dos habitantes de São Miguel - refiro-me apenas a São Miguel porque não visitei as outras ilhas devido ao alto custo do transporte – aéreo ou marítimo – entre elas. 

Hospitaleiros e nostálgicos, aqueles com quem entrei em contato me pareceram sentir-se um pouco náufragos: “O que eu não daria para pisar meus pés no continente”, confidenciou uma garçonete que jamais havia saído dos Açores, depois de descobrir que atendia brasileiros. 

Vontade de conhecer o Brasil não falta, mas é por conta do grande interesse despertado pelas “telenuvelas” da Rede Globo. E não por haver alguma consciência das ligações estabelecidas mais de duzentos anos atrás pela política de emigração. Essa parte da história é do interesse da Universidade local. Já entre a população é difícil encontrar alguém que saiba qualquer coisa do Brasil meridional e de Santa Catarina.

Para confirmar a regra, apenas o dono de uma loja de cestaria artesanal disse ter ideia das ligações com a Região Sul brasileira. “Muitos dos nossos foram para lá, mas isso faz 200 anos e hoje a ligação se perdeu. Ninguém mais sabe onde foram parar seus parentes. Faz muito tempo, muito tempo”, desconversou.

Com os Estados Unidos e o Canadá, ao contrário, há um estreito vínculo que se manifesta em nomes como Susan, Neil, Mary, comuns por aquelas bandas. Explica-se: a emigração para a América do Norte é recente – deu-se entre as décadas de 1950 e 1960 e, por causa disso, a maior parte dos que se fixaram nos EUA e Canadá volta regularmente aos Açores para rever amigos e parentes. 

Percebi isso durante visita a uma localidade no interior de São Miguel, um povoado chamado Lagoa - Sete Cidades. No domingo em que estive lá, 13 de agosto de 2000, a comunidade festejava o padroeiro, São Nicolau, com multicoloridos tapetes florais estendidos rua afora. Exatamente como nós comemoramos o Corpus Christi.  

Em meio à festa, conversando com as senhoras que se sentavam à sombra das frondosas árvores na praça da pequena igreja, foi possível encontrar algumas que haviam emigrado para os Estados Unidos e estavam apenas de passagem: “Matando as saudades”, disseram, misturando palavras inglesas ao carregado sotaque português: “Lá é ‘nice’, mas também é ‘cold’. Aqui é melhor. Um dia, eu volto”, prometiam a si mesmas, embora sem muita convicção. A viagem aos Açores despertou em mim sentimentos que oscilaram da identificação à frustração, porque mesmo havendo semelhanças entre nossos mundos, foi decepcionante perceber o desconhecimento deles ao nosso respeito e o fascínio que sentem pela América do Norte. Eu estava errada ao pensar que nossos interesses eram recíprocos.  

Outro equívoco que precisei corrigir foi o de achar que o açoriano tem uma vocação natural para o mar. Ao contrário. Pesquisadores do velho continente afirmam que o povo do arquipélago é “essencialmente voltado aos trabalhos agrícolas.” De fato, os açorianos constituíram um movimento migratório que se caracterizou pela economia baseada na pequena propriedade, instalada de modo contraditório na estrutura colonial-latifundiária. Está aí um bom começo para uma nova história.

Até a próxima!

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