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Abertura da Copa: em meio ao espetáculo da diversidade natural esperavam-se mais talentos brasileiros
 
Já dizia Fernando Pessoa, cantado por Caetano Veloso. Mas a julgar pela cerimônia de abertura da Copa, a Fifa não está nem aí para o idioma de Camões
 
Neste mês histórico, em que o Brasil voltou a sediar uma Copa do Mundo de Futebol 64 anos depois da traumática campanha de 50, é impossível à Preamar falar de outro assunto que não o campeonato mundial. Mais especificamente, da cerimônia de abertura do evento, realizada no Estádio do Corinthians na tarde da quinta-feira, dia 12. 
 
Informações sobre a festa haviam circulado antes, é certo, mas nada que diminuísse as expectativas em relação à forma como seríamos retratados aos olhos do mundo em um momento tão especial. 
 
E os primeiros movimentos no centro do gramado foram mesmo de encher os olhos: árvores ganhando vida, flores desatando pétalas, até vitórias-régias fizeram parte do cenário multicolorido elaborado para sintetizar a riquíssima flora brasileira.
 
Entretanto, quando o espetáculo parecia estar-se encaminhando para seu ponto alto, veio a decepção. Pelo menos pra mim. Talvez a maioria tenha aprovado a escolha de dois estrangeiros para compor um trio com a baiana Cláudia Leite que entoou, em inglês, a música ‘oficial’ desta 20. Copa Fifa. Se é assim, não faço parte da maioria. 
 
A meu ver, um dos maiores patrimônios brasileiros é justamente nossa música e seus espetaculares intérpretes, instrumentistas, compositores. Um país que é berço de gênios como Pixinguinha, Cartola, Dolores Duran, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Noel Rosa, para citar apenas alguns dos mestres de quem somos herdeiros, não poderia prescindir de um acervo tão rico. Não poderia deixar que espaço e momento tão relevante quanto o da tarde dessa quinta-feira fosse embalado por um ritmo que não nos toca, cantado em uma língua que não é a nossa. 
 
Não se trata de xenofobia; ao contrário. Trata-se de exigir que as diferenças entre os povos sejam respeitadas. Ora, se falamos português, nada mais justo do que usarmos o idioma pátrio na abertura de um evento que se realiza em plena São Paulo. Para atender os estrangeiros, que o telão apresente legendas em inglês enquanto a música é executada, isso sim! 
 
Se foi uma exigência da Fifa aquele número musical sem graça - pior ainda, sem identidade – temos mais motivo para lamentar. Quer dizer que nos submetemos a ingerências externas descabidas. Alguém já imaginou a abertura de um grande evento nos Estados Unidos com a trilha sonora cantada em espanhol? Por que não? Ah, porque o inglês é a língua mais popular, ‘comercial’, todo mundo fala inglês ou deveria falar, etc,etc. Ora, o espanhol também é muito difundido no mundo todo, mas nem por isso os americanos aceitariam, penso eu, adotá-lo em substituição ao próprio idioma. E com toda a razão.  
 
O mesmo vale para a imposição de dois convidados estrangeiros na cerimônia de abertura. Sim, são famosos, mundialmente famosos. Podem atender ao mercado, atrair olhares e atenções, angariar mais audiência e dinheiro, enfim, corresponder às expectativas mercantilistas dos cartolas do futebol mundial. Só que não nos representam.  
 
Não se questiona aqui o talento ou a competência dos artistas, mas a inadequação da escolha, pois no tipo de evento de que estamos tratando espera-se que o país-sede mostre-se em toda a sua plenitude, com os talentos e destaques nativos sendo postos em primeiro plano. 
 
Para encerrar: por falar em talento nativo, alguém viu ou ouviu falar de um certo rei do futebol na abertura da 20ª Copa do Mundo? Dizem que ele é brasileiro. 
 
Até a próxima!
 
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