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Aumento recorde dos índices de desmatamento e no uso de agrotóxicos, corte de incentivos à geração de energia limpa, exploração irracional de recursos naturais, superocupação do solo. Enquanto faz a contagem regressiva dos poucos anos que restam para o dia “D”, quando as mudanças climáticas serão irreversíveis, a humanidade parece ignorar comportamentos e ideias que devem nos levar, em menos de meio século, a um aumento catastrófico da temperatura. Embora sejam problemas globais, é fácil identificar localmente como essa mentalidade coletiva tem nos levado cada vez mais para perto da beira do abismo.

É aqui, nas nossas cidades, que as políticas de desenvolvimento começam a ser elaboradas, mas continuam a despertar pouco interesse da população. Saneamento básico, saúde, orçamento e contas das Prefeituras são alguns dos temas em que há um vácuo de participação popular, preenchido única e exclusivamente por quem tira vantagem desse planejamento.

Em Balneário Piçarras, por exemplo, a revisão do Plano Diretor está cercada de vícios e indícios de manipulação apontados pelo Ministério Público, mas desperta pouca ou nenhuma revolta. E o que já estava ruim acaba de piorar. Com pouca divulgação, a revisão das leis que regem o desenvolvimento da cidade se transformou em ferramenta para atender exclusivamente aos interesses de grandes proprietários de terras, construtoras e especuladores.

Mas ao entrar em debate na Câmara, os vereadores mostraram que o que está ruim sempre pode piorar. Verticalização e ocupação “a qualquer custo” de áreas sensíveis como a orla da praia e margens de rios já levaram à morte de lagoas, manguezais e à destruição da orla central da praia. Mas enquanto enfrentamos problemas como falta de mobilidade e saneamento, no lugar de discutir estratégias para sustentar o crescimento, os parlamentares apresentam medidas que comprometem a qualidade de vida e esgotam recursos.

Aterro de lagoas e mangue: "Progresso" que trouxe a destruição da orla central da praia (Arquivo)

Em tempos de ascensão de teorias terraplanistas, negação do aquecimento global e relativização da violência, o que menos se pode esperar é um debate cercado por coerência com os fatos. Afinal, quem vai lucrar com a revisão do plano diretor pensa que não precisa de praças, postos de saúde, mobilidade e segurança.

Engana-se: todos pagaremos o preço.

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