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Beto Carrero
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 "Olga pessoa real" será lançado dia 14, em Navegantes

Curta “Olga, pessoal real” marca estreia do diretor Richard Frankl no cinema

Uma vendedora de loja que se envolve numa trama surpreendente é a protagonista do conto “Olga, pessoa real”, do escritor navegantino Omar Azevedo. A história é inspiração para o filme homônimo do diretor, produtor e roteirista de Balneário Piçarras, Richard Frankl, que lança o curta metragem na próxima sexta-feira (14), em Navegantes.

A produção de 15 minutos de duração, com quatro atores e diversos figurantes, é um drama  que levou quase quatro meses para ficar pronto. As gravações em Navegantes têm como principais locações uma loja, uma residência, o Ferry Boat, a praia e as ruas da cidade que fazem parte da rotina da protagonista.

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A película marca a estreia de Richard Frankl, 36 anos, da produtora Piracema Filmes, em uma produção profissional. “É meu primeiro trabalho com um orçamento definido e também meu primeiro trabalho de ficção. Fiz alguns trabalhos para a prefeitura (Piçarras) e até documentários, mas sem esta estrutura do curta, com orçamento e uma equipe”, explica.

Depois de Navegantes, Frankl pretendente levar o filme para outros municípios da região, inclusive Piçarras. “Vamos fazer o lançamento em Navegantes, mas a ideia é fazer a exibição em Balneário Piçarras, Penha e em outras cidades. O curta-metragem também será inscrito em festivais de cinema”, adianta o diretor.

“Olga, pessoa real” será lançado no dia 14 de março, no Rancho Mafra, que fica na rua Ricardo Mafra, no Centro de Navegantes. A entrada é gratuita. A produção é financiada com recursos do Fundo Municipal de Cultura de Navegantes e custou R$ 15 mil.

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Olga, pessoa real

Omar Azevedo

Olga fora criada para ser a boa moça, talhada desde pequena, pela mãe e pela tia solteirona, para ser o orgulho da família.

E conseguira. A duras penas, mas...de que vale um gosto se trouxer na bagagem tanto desgosto? – onde era mesmo que tinha lido isso?...Ou foi alguém que lhe disse?... Talvez tenha escutado em algum filme, na televisão.

( E essa hora que não passa, menina! )

Casara-se com o primeiro namorado. “Primeiro e único homem de sua vida”, costumava dizer sua mãe às amigas (ou inimigas) sempre que tinha chance, para realçar as virtudes de sua família ou para achincalhar a família de outrem.

Não tivera filhos. Pelo menos, ainda não. E já não tinha mais tantas esperanças de tê-los. E sabia, no fundo, que a culpa nem era sua.

( Que tarde chata, hém?...Nem mosca entra nessa loja hoje...)

Romualdo sempre se recusando a fazer os exames, dizendo que não tem problema nenhum com ele, já tinha até filho com outra. Ou outras. E fazendo questão de jogar isso na cara dela, como que para fazê-la desistir de vez de insistir nessa história de médico. Médico pra quê? Filho pra quê?...

- Boa tarde, moça, eu...

O rapaz alto e magro, de cara boa e calças muito largas, com boné de aba para trás, tirou-a de suas divagações familiares.

- Bo-boa tarde, pois não? Posso ajudá-lo?

- Eu queria ver aquele tênis ali, número 44.

- Um instante, sim, que eu vou pegar...

( Até que enfim alguém vai comprar alguma coisa. Não tinha vendido nada o dia todo. Um marasmo, como a vida...)

O moço provou o calçado, meio sem jeito como quem não quer dar trabalho, perguntou quanto era, se tinha desconto e começou a puxar conversa. E olhava – a com uma tal intensidade, que a fazia se sentir viva. Perguntou se ela trabalhava há muito tempo, se sempre fora balconista, se gostava do que fazia, se estava feliz de fazer aquilo. Disse que fazia faculdade de Cinema. Tinha tentado Direito, que o pai queria, mas não conseguiu se ajustar. Enveredou pelos caminhos das artes visuais e agora estava trabalhando num projeto sobre tipos humanos comuns, pessoas reais, extraídas das páginas da vida cotidiana, real, de gente como a gente. E dizia-lhe essas coisas com tal entusiasmo, falando com os olhos, a voz e os gestos tão empolgados, que nem parecia o rapaz sem jeito de momentos antes, gaguejando para pedir desconto...

Corta!

O resto da tarde, ficou pensando no moço bonito e gentil, que lhe falara todas aquelas coisas de cinema, produzir um curta com pessoas-tipo ( Não entendeu direito que diabo é isso, mas ele falava tão bem, tão empolgado. E tão educado. “ – É senhora ou senhorita?... Nossa!, senhora? Nem parece. Tão jovem, tão viçosa...A senhora então casou muito jovem...”

Casara. Com o primeiro namorado. O único homem da sua vida. Até agora, até ali...”...até um dia, até quem sabe, até talvez...” – não tinha certeza da música, mas tinha certeza do que sentira enquanto conversava com o Diogo – esse o nome do jovem cineasta. Sentira-se bem, sentira-se viva, sentira-se importante para alguém, que achava que ela merecia mais, cheio de intenções boas, de fazê-la entender aquelas coisas complicadas que ele falava. E ele falava de várias coisas ao mesmo tempo. E misturava os assuntos. Mas tão educado. E tão bonito. E cineasta...

Corta!

- Um curta?! Claro que eu sei o que é um curta, sua tonta. É um filme pequeno. Diferente de um longa, que é um filme grande. Quem é que não sabe?!...

Há tempos o Romualdo não conversava assim com ela. Há muito só se comunicavam por monossílabos, ou às vezes nem isso, apenas os mesmos gestos mecânicos de todos os dias, sem legenda, como dizia o Diogo. Tão gentil. Sempre passando por frente à loja, apressado, acenando... Dia desses parou para dizer como ia o projeto lá dele, das pessoas reais. E perguntou se poderia filmá-la trabalhando, mesmo que de longe. Não queria incomodar...

Conversou com a bruxa da patroa, que logo se escalou e já despejou uma avalanche de sandices e bobagens em cima do Diogo, contando vantagens e falando, falando, falando. Coitada, uma louca mal amada, casada com um banana e metida a comer sardinha a arrotar caviar, como se diz por aí. E a contar as idéias lá da cabeça dela, sem pé nem cabeça... até parece que ela própria acredita nas besteiras que fala. E como fala...

Comentou com o marido, em casa, sobre a fita que o moço queria fazer com ela, trabalho da faculdade. E ele, é claro, nem lhe prestou muita atenção, entretido com a página esportiva do jornal e o programa de televisão que mostra acidentes e outras desgraceiras reais.

Pessoas reais – era esse o nome do documentário do Diogo. Ele veio convidá-la para ir ver a estréia, lá na faculdade. Iam passar todos os trabalhos...Disse que não poderia ir sozinha, só se o marido fosse junto e ele tinha jogo de futebol para ver na televisão. Que time? Ah, qualquer um. Aquele paga para não tirar o traseiro gordo de cima do sofá.

- É uma pena, vai ser muito legal... E ela queria tanto ver como ficou. Queria se ver no cinema. Nunca fora filmada.

Resolveu ir. Tentou convencer o marido a ir junto. Disse que iam passar o filme em que ela é a loja apareciam. E ele, que naquele dia estava mais mal humorado que de costume, porque o seu time estava na lanterna do campeonato, resolveu implicar e não deixar. E começou a falar alto, a gritar com ela (Tão desagradável, os vizinhos ouvindo...). E ela insistiu e disse que queria muito ver e ele disse “ – Vai, sua puta, vai atrás do teu outro macho...”, e ela recebeu aquilo como um tapa. Não! como um coice.

Já não ouvia mais as coisas que ele falava, gesticulando agitado.

Transtornada, a cabeça girando, enquanto as mãos, mecanicamente, cortavam a carne em pedacinhos, para o jantar. Sempre achara aquela faca grande demais pra se usar na cozinha, mas agora, de repente, como que num estalo de idéia, entendeu por que precisava ser tão grande...

Quando a polícia chegou, encontrou-a sentada a um canto da cozinha, faca na mão, olhar perdido no vazio, repetindo que só queria ver como ficou a fita...


* OMAR AZEVEDO é natural de Santos, SP, residente e domiciliado em Navegantes, SC, professor (estadual) de Língua e Literatura, com pós graduação afim.

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