Painel

É impressionante como sabemos pouco a respeito daqueles que nos cercam. Mas disso só nos damos conta quando nos dispomos a ouvi-los falar sobre suas trajetórias, seus caminhos, suas vidas

A Preamar tem procurado ouvir as pessoas, e com muita frequência se surpreende com elas, com as tantas experiências que viveram e com a rica história que têm a compartilhar. É o caso do personagem que focalizamos a partir desta edição: Antônio Luiz Silvestre, piçarrense nascido à beira-mar em 05 de setembro de 1930, teve carreira de sucesso como cantor sertanejo e chegou mesmo a ser incentivado pelos grandes Tonico e Tinoco. Como tudo se passou o leitor vai descobrir a partir de agora. Acompanhe. 

Filho de Luiz Francisco da Silva e Serafina Francisca de Jesus, o percurso de Antônio Luiz Silvestre remete-nos a Itajaí. A mãe dele era da família Cordeiro, que dá nome ao bairro na entrada norte da cidade vizinha. O pai dela se chamava Zeferino Vieira Cordeiro. Por causa disso, seu Antônio e eu acabamos deduzindo que o sobrenome completo da família era Cordeiro de Jesus. O que me leva a outra árvore genealógica: minha bisavó paterna, também natural do Bairro Cordeiros, se chamava Umbelina Paula Cordeiro de Jesus - interessante como a gente vai tecendo a própria história enquanto ouve a história dos nossos entrevistados... 

Por estarmos falando em sobrenomes, seu Antônio aproveita para me explicar de onde vem o Silvestre:

- Silvestre é nome, tinha que ser Silva, mas aí erraram. Foi um tio meu que me batizou com a minha avó, a mãe do meu pai, e Silvestre era nome de alguém, um avô ou bisavô da família do meu pai, nome de batismo. O meu irmão era José Luiz da Silva, botaram certo. O meu é que ficou assim. Só que eu não troquei porque já estava na certidão, né? Essa é a história do Silvestre. 

Voltando à narrativa inicial, seu Antônio conta que o avô Zeferino viuvou e ficou com duas filhas: Serafina e Bernarda. Zeferino então foi embora para a Barra do Itapocu, para o lugar que antigamente se chamava Parati e hoje é município de Araquari. Ele comprou um terreno na divisa de Barra Velha com Araquari e se casou com uma moça da família Frederico. No segundo casamento, teve nove filhas. Com as duas do primeiro casamento, criou 11 mulheres. 

Serafina se casou com Luiz Francisco da Silva. E aí começa a história de seu Antônio, que ele assim revive:

- A minha mãe teve seis filhos: 03 homens e 03 mulheres. O mais velho, Manoel, morreu com dois anos de idade. O meu pai era natural da Corveta. Casou e foi morar na Barra do Itapocu. Ali morreu o menino. Ela ficou muito apaixonada [sentida] com a perda do primeiro filho e disse pro meu pai dois anos depois, quando engravidou de mim: Olha, vamos embora pra Piçarras porque aqui eu não me esqueço do menino. 

Aí o meu pai trouxe ela. O João Frederico, que a gente chamava de tio porque era irmão da madrasta da minha mãe, já morava em Piçarras e foi quem acolheu eles. Tinha engenho de farinha; fez uma moradinha na terra dele na Tapera [norte da praia de Piçarras]. Depois o meu pai fez um ranchinho na areia da praia, bem em frente onde hoje é o Hotel Itacolomi. Naquele tempo não tinha hotel. O rancho era de pau a pique: as paredes barreadas e a coberta feita de palha que o meu pai tecia. O chão era batido, não tinha assoalho, não tinha nada, a gente era muito pobre. Foi ali que eu nasci. 

O meu pai pescava numa canoa a vela. Eu comecei a pescar com ele ainda menino. A gente usava só espinhel. Pra fazer a rede tinha que tirar o linho da folha do tucum, a minha mãe cochava [torcia] no fuso de mão, fazia a cordinha bem fininha pra gente tecer a rede, a tarrafa, tudo com a folha do tucum. A praia era linda. Eu fui crescendo assim; não demorou muito a minha mãe faleceu, eu tinha sete para oito anos. Quase não me recordo da minha mãe, mas lembro que um pouco antes de morrer ela chamou nós.

Chamou e fez uma profecia sobre a qual falaremos na próxima semana.  

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