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Beto Carrero

A família Ziobro está prestes a se reunir e, agora com mais uma integrante, partir com destino a uma nova pátria

Na quarta-feira, dia 30 de agosto, a narradora da história que estamos acompanhando desde abril completou 90 anos de idade. Zófia Maria Ziobro é uma sobrevivente, uma testemunha lúcida de um episódio dos mais lastimáveis na história da humanidade: a II Guerra Mundial. A resiliência de Zófia, sua capacidade de resistir, reerguer-se, adaptar-se, é inspiradora. Ouvi-la e registrar seu relato torna-se, por isso, mais que uma função jornalística, uma forma de alertar as novas gerações sobre os riscos representados pela ganância e pela sede do poder.

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Continuamos, portanto, a dar-lhe voz em mais um episódio da série. Acompanhe.

“Minha mãe estava trabalhando como enfermeira em um hospital militar na Palestina, e esse hospital foi transferido para o Egito, para AlCântara, à beira do Canal de Suez. Quando tínhamos férias da escola, eu tinha direito de ir visitar minha mãe. Marisha, como não tinha ninguém, tinha que ficar. Eu, como sempre fui meio do contra, falei que não é justo, por que ela não pode ir junto comigo, não? Faz de conta que ela é minha irmã: Então eles telefonaram para minha mãe se minha mãe aceitava e a minha mãe aceitou. Cada vez que eu viajava, Marisha viajava comigo. Nós tomávamos banho no Canal de Suez.

Marisha não tinha documento nenhum. Minha mãe, então, com as amigas delas, fez certidão de nascimento na base do depoimento. Na Polônia, só usavam um nome no documento, mas agora aqui podia ter alguns nomes, então a mãe colocou para ela mais uma Sofia [Sofia ou Zófia, trata-se do mesmo nome]. Então eu sou Zófia Maria e ela ficou Maria Zófia [embora a grafia seja diferente, nossa entrevistada o pronuncia sempre como Sofia].  A mãe não era devota de Santa Sofia, mas gostava do nome e tinha uma irmã que se chamava Sofia. Então...

Na Palestina, as duas amigas-irmãs foram inseparáveis enquanto seguiam adiante nos estudos.

- Quando nós terminamos o Colegial, podíamos escolher: tinham colegas que foram transferidas para a Itália porque tiraram escola de motorista. Eu fiz escola de motorista naqueles caminhões enormes do Exército e podia trabalhar como motorista na Itália ou na Inglaterra. Nós duas [Zófia Maria e Maria Zófia] escolhemos a Inglaterra e fomos levadas para um campo de contabilidade do Exército, perto de Londres, era um acampamento – Witley Camp. Eu estava trabalhando na correspondência, acho que Marisha também; descobri que tinha um primo que morava em Londres. Ele era cônsul polonês. 

Nós podíamos voltar para a Polônia, mas minha mãe não queria voltar porque tinha medo de terceira guerra mundial, já havia passado por duas guerras. 

Eu a interrompo neste ponto para conversarmos sobre a relevância político-econômica do território polonês, que por fazer fronteira com a Rússia e a Alemanha, vive às voltas com ameaças. Dona Zófia observa que o perigo de invasão continua a rondar a Polônia nos dias de hoje tanto quanto  se fazia sentir mais de 70 anos atrás, ocasião em que o grande conflito entre as potências mundiais separou famílias e expatriou os cidadãos poloneses, entre os quais a avó dela, Janina.

- Quando começou a guerra, minha avó estava na Bélgica, visitando outra filha, e não pôde mais voltar para casa, então ela veio para o Brasil, esperar para poder voltar. Minha mãe resolveu vir ao encontro dela, porque aqui teria um apoio, e perguntou para Marisha se ela queria vir junto. Ela queria. A mãe procurou os irmãos de Marisha e descobriu que estavam no orfanato, na Inglaterra; perguntou pra eles também, mas eles não queriam”. 

Foi assim que a família Ziobro, agora acrescida por Maria Zófia Bonikowska, a Marisha, veio parar no Brasil, mais precisamente em Curitiba. 

Mas essa parte da história fica para a próxima semana.

Até lá!

Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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